Veoza: mecanismo inovador para quem sofre de calor e sudorese na menopausa

Bianca Azevedo

Veoza: mecanismo inovador para quem sofre de calor e sudorese na menopausa

O Veoza (fezolinetanto) não é apenas “mais uma opção” para ondas de calor. É o primeiro medicamento de uma classe inteiramente nova — antagonistas NK3 — que age no cérebro para “reajustar” o termostato desregulado da menopausa, sem hormônios.  

Aprovado pela Anvisa em junho de 2026, ele ainda não tem data de lançamento nem preço no Brasil, mas a parceria entre Astellas e Hypera sinaliza que a comercialização está em curso. 

Por que o Veoza é um tratamento diferente 

Durante décadas, o tratamento das ondas de calor e sudorese noturna da menopausa foi dominado pela terapia de reposição hormonal (TRH). A lógica era simples: se o corpo está com falta de estrogênio, repunha-se o estrogênio. A TRH é eficaz e continua sendo o padrão-ouro para mulheres sem contraindicações, mas não serve para todas — seja por risco de câncer de mama, histórico de trombose, doença cardiovascular ou simplesmente por escolha pessoal. 

O Veoza representa uma mudança de paradigma: em vez de repor hormônios, ele interfere diretamente no mecanismo cerebral que desencadeia as ondas de calor. É uma abordagem completamente diferente, que não mexe nos níveis hormonais, mas “desliga” o sinal equivocado que faz o corpo se sentir superaquecido. 

Como funciona? 

O papel dos neurônios KNDy e da neurocinina B 

No hipotálamo (a região do cérebro responsável pela termorregulação) existe um grupo de neurônios chamados KNDy (que produzem três substâncias: kisspeptina, neurocinina B e dinorfina). Esses neurônios são sensíveis ao estrogênio e desempenham papel central no controle da temperatura corporal. 

Na menopausa, com a queda do estrogênio, os neurônios KNDy perdem parte de sua regulação inibitória. Isso faz com que a neurocinina B (NKB) seja produzida em excesso e se ligue ao receptor NK3, enviando sinais errôneos ao centro termorregulador de que o corpo está “quente demais”. O organismo, então, dispara mecanismos de resfriamento: vasodilatação periférica (a sensação de calor) e sudorese (a sudorese noturna). 

O que o fezolinetanto faz 

O fezolinetanto é um antagonista seletivo do receptor NK3. Ele se liga a esse receptor e impede que a NKB exerça seu efeito. Na prática, bloqueia o sinal equivocado de “superaquecimento” no hipotálamo, reduz a frequência e a intensidade das ondas de calor e da sudorese noturna,  não altera os níveis de estrogênio nem de outros hormônios e não interfere na fertilidade (mas não deve ser usado por gestantes). 

O que o Veoza não faz 

É importante ter expectativas realistas: 

  • Não trata ressecamento vaginal ou dispareunia (dor nas relações sexuais). 
  • Não previne osteoporose. 
  • Não substitui a TRH para mulheres que podem e querem usá-la. 
  • Não trata alterações de humor ou outros sintomas psicológicos da menopausa. 

Para quem o Veoza é indicado? 

O Veoza é indicado para mulheres na menopausa com sintomas vasomotores moderados a graves, definidos como: 

  • Ondas de calor que ocorrem com frequência e intensidade suficientes para interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou no bem-estar geral. 
  • Sudorese noturna que perturba o sono ou exige troca de roupas de cama. 

É particularmente adequado para: 

  • Mulheres com contraindicação à TRH: histórico de câncer de mama, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, AVC, doença coronariana, sangramento vaginal de origem indeterminada, doença hepática ativa. 
  • Mulheres que não toleram TRH: efeitos colaterais como sangramento irregular, mastalgia, inchaço, náusea. 
  • Mulheres que optam por não usar hormônios por decisão pessoal. 
  • Mulheres que já tentaram outras opções não hormonais (ISRS, ISRSN, gabapentina, clonidina) sem sucesso ou com efeitos colaterais intoleráveis. 

Para quem NÃO é indicado? 

Contraindicações absolutas:

  • Gestação (categoria X) ou suspeita de gestação. 
  • Hipersensibilidade ao fezolinetanto ou a qualquer componente da fórmula. 
  • Uso concomitante de inibidores moderados ou potentes da CYP1A2: fluvoxamina, enoxacina, ciprofloxacino, contraceptivos orais contendo etinilestradiol, entre outros. 

Não recomendado (avaliação individual):

  • Insuficiência hepática moderada a grave (Child-Pugh B ou C). 
  • Insuficiência renal grave (clearance de creatinina < 30 mL/min). 
  • Doença hepática ativa ou enzimas hepáticas elevadas sem explicação. 
  • Uso de outros medicamentos metabolizados pela CYP1A2 (cafeína, teofilina, tizanidina, olanzapina, clozapina) — pode haver interação. 

Efeitos colaterais do Veoza 

Efeitos comuns (podem afetar até 1 em cada 10 usuárias):

  • Diarreia: o mais frequente, geralmente leve e transitória. 
  • Distúrbios do sono: insônia ou sonolência. 
  • Dor de cabeça. 
  • Fadiga. 
  • Náusea. 
  • Dor abdominal. 
  • Tontura. 

Efeitos incomuns (podem afetar até 1 em cada 100 usuárias):

  • Elevação das enzimas hepáticas (ALT/TGP, AST/TGO). 
  • Elevação da bilirrubina. 
  • Erupções cutâneas. 
  • Prurido. 

Efeitos raros, mas graves:

  • Lesão hepática induzida por medicamento: a bula alerta para casos de elevação grave de enzimas hepáticas, incluindo casos com elevação de bilirrubina. A maioria foi reversível após a suspensão, mas o monitoramento é obrigatório. 
  • Reações de hipersensibilidade graves (angioedema, anafilaxia): muito raras. 

Monitoramento obrigatório da função hepática 

Este é um dos pontos mais importantes da segurança do Veoza: 

  • Antes de iniciar: dosar ALT, AST, bilirrubina e fosfatase alcalina. 
  • Primeiros 3 meses: monitorar mensalmente. 
  • Após 3 meses: monitorar periodicamente, conforme orientação médica. 

Se aparecerem sintomas como icterícia (pele/olhos amarelos), urina escura, fezes claras, dor abdominal intensa, náusea persistente ou fadiga inexplicável: suspender o medicamento e procurar o médico imediatamente. 

Eficácia comprovada em estudos clínicos 

Os estudos de fase 3 que embasaram a aprovação do Veoza incluíram milhares de mulheres na menopausa com sintomas vasomotores moderados a graves.  

Os resultados principais mostraram redução de mais da metade das ondas de calor já nas primeiras 4 semanas, melhora contínua ao longo do tratamento e benefícios que vão além da contagem de ondas de calor, como sono melhor, menos interferência nas atividades diárias e melhor bem-estar geral. 

Segurança a longo prazo: o que ainda não sabemos 

O Veoza foi aprovado com base em estudos de até 52 semanas. No entanto, por ser um medicamento novo, dados de segurança a longo prazo (vários anos) ainda estão sendo coletados. Isso significa que: 

  • Não há dados sobre uso por mais de 1 ano em grandes populações. 
  • Não há dados sobre interações com doenças raras ou condições específicas. 
  • Não há dados sobre uso em mulheres com câncer de mama (estudos específicos estão em andamento). 

Por isso, o medicamento deve ser usado sob prescrição e acompanhamento médico, com monitoramento regular. 

Situação no Brasil: o que já aconteceu e o que falta 

A Anvisa aprovou o registro do Veoza no Brasil em 22 de junho de 2026 (Resolução nº 2.430/2026). Em julho, a Astellas (responsável pelo medicamento) anunciou parceria estratégica com a Hypera Pharma para comercializar um segundo nome comercial do fezolinetanto no Brasil. 

Até o momento, o medicamento não está disponível nas farmácias e não tem preço definido pela CMED. 

O que falta para chegar às farmácias? 

  1. Precificação pela CMED: a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos precisa aprovar o preço máximo de venda ao consumidor. Sem isso, o medicamento não pode ser comercializado. 
  2. Definição da estratégia de lançamento: a Astellas (marca VEOZA®) e a Hypera (segunda marca) precisam definir preços, canais de distribuição e campanhas de conscientização. 
  3. Treinamento de médicos: a classe é nova, e muitos ginecologistas e clínicos ainda não conhecem o medicamento. A educação médica é essencial para o uso adequado. 

Veoza vs. TRH: qual escolher? 

A escolha depende do perfil da paciente. Mulheres sem contraindicações e dentro da janela de oportunidade devem considerar a TRH como primeira linha. O Veoza é uma alternativa para quem não pode ou não quer usar hormônios, mas não substitui todos os benefícios da TRH. 

Perguntas mais buscadas sobre o Veoza 

  1. Veoza já está disponível no Brasil?
    Não. Foi aprovado pela Anvisa em junho de 2026, mas ainda não chegou às farmácias. Não há data oficial de lançamento nem preço definido. 
  2. Quanto custa o Veoza no Brasil?
    Ainda não há preço oficial. A CMED não divulgou a tabela. Internacionalmente, o custo mensal varia de cerca de € 64 (Europa) a AU$ 80 (Austrália). No Brasil, espera-se um medicamento de alto custo. 
  3. Veoza é hormonal?
    Não. É um medicamento não hormonal que age no cérebro, bloqueando o receptor NK3, sem repor estrogênio ou progesterona. 
  4. Veoza engorda?
    O ganho de peso não está entre os efeitos colaterais mais comuns nos estudos clínicos. Os mais frequentes são diarreia, distúrbios do sono e dor de cabeça. No entanto, cada organismo reage de forma diferente, e o médico deve ser informado de qualquer alteração. 
  5. Veoza tem contraindicação?
    Sim. É contraindicado na gravidez, em caso de alergia ao fármaco e no uso concomitante com inibidores moderados/fortes da CYP1A2 (fluvoxamina, enoxacina, ciprofloxacino, contraceptivos com etinilestradiol). Não é recomendado para pacientes com insuficiência hepática moderada a grave ou insuficiência renal grave. 
  6. Veoza faz mal ao fígado?
    Pode causar elevação das enzimas hepáticas e, em casos raros, lesão hepática. Por isso, é obrigatório monitorar a função hepática antes e durante o tratamento (mensalmente nos primeiros 3 meses). 
  7. Veoza substitui a reposição hormonal?
    Não. A TRH continua sendo o tratamento de primeira linha para mulheres sem contraindicações. O Veoza é uma alternativa para quem não pode ou não quer usar hormônios, mas não trata ressecamento vaginal nem previne osteoporose. 
  8. Como tomar o Veoza?
    45 mg (um comprimido) uma vez ao dia, engolido inteiro, com ou sem alimento, sempre no mesmo horário. Não pode ser partido, mastigado ou triturado. 
  9. Quem pode tomar Veoza?
    Mulheres na menopausa com ondas de calor e/ou sudorese noturna moderadas a graves, especialmente aquelas com contraindicação ou intolerância à TRH, ou que optam por não usar hormônios. 
  10. Veoza é aprovado pela Anvisa?
    Sim. O registro foi aprovado em 22 de junho de 2026 (Resolução nº 2.430/2026), mas o medicamento ainda não está disponível nas farmácias. 
  11. Veoza tem genérico?
    Não. O fezolinetanto é uma molécula nova, protegida por patente. Não há genérico disponível no Brasil nem no mundo. 
  12. Veoza pode ser usado por mulheres com câncer de mama?
    Ainda não há dados definitivos. Estudos específicos em mulheres com histórico de câncer de mama estão em andamento. A decisão deve ser tomada em conjunto com o oncologista, considerando riscos e benefícios. 
  13. Veoza interfere no anticoncepcional?
    Sim. Contraceptivos orais contendo etinilestradiol são inibidores moderados da CYP1A2 e não devem ser usados concomitantemente com o Veoza. Além disso, o Veoza não é um método contraceptivo, e mulheres em idade fértil devem usar métodos contraceptivos adequados. 
  14. Veoza causa sonolência?
    Pode causar distúrbios do sono, incluindo insônia ou sonolência. Recomenda-se cautela ao dirigir ou operar máquinas até que se saiba como o medicamento afeta cada pessoa. 
  15. Quanto tempo leva para o Veoza fazer efeito?
    Nos estudos clínicos, os primeiros efeitos significativos foram observados já na 4ª semana de tratamento. A melhora continua ao longo das 12 semanas e além. 
Fontes 

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