Veoza: mecanismo inovador para quem sofre de calor e sudorese na menopausa
Bianca Azevedo

- Por que o Veoza é um tratamento diferente
- Como funciona?
- O que o fezolinetanto faz
- O que o Veoza não faz
- Para quem o Veoza é indicado?
- Para quem NÃO é indicado?
- Efeitos colaterais do Veoza
- Monitoramento obrigatório da função hepática
- Eficácia comprovada em estudos clínicos
- Segurança a longo prazo: o que ainda não sabemos
- Situação no Brasil: o que já aconteceu e o que falta
- O que falta para chegar às farmácias?
- Veoza vs. TRH: qual escolher?
- Perguntas mais buscadas sobre o Veoza
O Veoza (fezolinetanto) não é apenas “mais uma opção” para ondas de calor. É o primeiro medicamento de uma classe inteiramente nova — antagonistas NK3 — que age no cérebro para “reajustar” o termostato desregulado da menopausa, sem hormônios.
Aprovado pela Anvisa em junho de 2026, ele ainda não tem data de lançamento nem preço no Brasil, mas a parceria entre Astellas e Hypera sinaliza que a comercialização está em curso.
Por que o Veoza é um tratamento diferente
Durante décadas, o tratamento das ondas de calor e sudorese noturna da menopausa foi dominado pela terapia de reposição hormonal (TRH). A lógica era simples: se o corpo está com falta de estrogênio, repunha-se o estrogênio. A TRH é eficaz e continua sendo o padrão-ouro para mulheres sem contraindicações, mas não serve para todas — seja por risco de câncer de mama, histórico de trombose, doença cardiovascular ou simplesmente por escolha pessoal.
O Veoza representa uma mudança de paradigma: em vez de repor hormônios, ele interfere diretamente no mecanismo cerebral que desencadeia as ondas de calor. É uma abordagem completamente diferente, que não mexe nos níveis hormonais, mas “desliga” o sinal equivocado que faz o corpo se sentir superaquecido.
Como funciona?
O papel dos neurônios KNDy e da neurocinina B
No hipotálamo (a região do cérebro responsável pela termorregulação) existe um grupo de neurônios chamados KNDy (que produzem três substâncias: kisspeptina, neurocinina B e dinorfina). Esses neurônios são sensíveis ao estrogênio e desempenham papel central no controle da temperatura corporal.
Na menopausa, com a queda do estrogênio, os neurônios KNDy perdem parte de sua regulação inibitória. Isso faz com que a neurocinina B (NKB) seja produzida em excesso e se ligue ao receptor NK3, enviando sinais errôneos ao centro termorregulador de que o corpo está “quente demais”. O organismo, então, dispara mecanismos de resfriamento: vasodilatação periférica (a sensação de calor) e sudorese (a sudorese noturna).
O que o fezolinetanto faz
O fezolinetanto é um antagonista seletivo do receptor NK3. Ele se liga a esse receptor e impede que a NKB exerça seu efeito. Na prática, bloqueia o sinal equivocado de “superaquecimento” no hipotálamo, reduz a frequência e a intensidade das ondas de calor e da sudorese noturna, não altera os níveis de estrogênio nem de outros hormônios e não interfere na fertilidade (mas não deve ser usado por gestantes).
O que o Veoza não faz
É importante ter expectativas realistas:
- Não trata ressecamento vaginal ou dispareunia (dor nas relações sexuais).
- Não previne osteoporose.
- Não substitui a TRH para mulheres que podem e querem usá-la.
- Não trata alterações de humor ou outros sintomas psicológicos da menopausa.
Para quem o Veoza é indicado?
O Veoza é indicado para mulheres na menopausa com sintomas vasomotores moderados a graves, definidos como:
- Ondas de calor que ocorrem com frequência e intensidade suficientes para interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos ou no bem-estar geral.
- Sudorese noturna que perturba o sono ou exige troca de roupas de cama.
É particularmente adequado para:
- Mulheres com contraindicação à TRH: histórico de câncer de mama, trombose venosa profunda, embolia pulmonar, AVC, doença coronariana, sangramento vaginal de origem indeterminada, doença hepática ativa.
- Mulheres que não toleram TRH: efeitos colaterais como sangramento irregular, mastalgia, inchaço, náusea.
- Mulheres que optam por não usar hormônios por decisão pessoal.
- Mulheres que já tentaram outras opções não hormonais (ISRS, ISRSN, gabapentina, clonidina) sem sucesso ou com efeitos colaterais intoleráveis.
Para quem NÃO é indicado?
Contraindicações absolutas:
- Gestação (categoria X) ou suspeita de gestação.
- Hipersensibilidade ao fezolinetanto ou a qualquer componente da fórmula.
- Uso concomitante de inibidores moderados ou potentes da CYP1A2: fluvoxamina, enoxacina, ciprofloxacino, contraceptivos orais contendo etinilestradiol, entre outros.
Não recomendado (avaliação individual):
- Insuficiência hepática moderada a grave (Child-Pugh B ou C).
- Insuficiência renal grave (clearance de creatinina < 30 mL/min).
- Doença hepática ativa ou enzimas hepáticas elevadas sem explicação.
- Uso de outros medicamentos metabolizados pela CYP1A2 (cafeína, teofilina, tizanidina, olanzapina, clozapina) — pode haver interação.
Efeitos colaterais do Veoza
Efeitos comuns (podem afetar até 1 em cada 10 usuárias):
- Diarreia: o mais frequente, geralmente leve e transitória.
- Distúrbios do sono: insônia ou sonolência.
- Dor de cabeça.
- Fadiga.
- Náusea.
- Dor abdominal.
- Tontura.
Efeitos incomuns (podem afetar até 1 em cada 100 usuárias):
- Elevação das enzimas hepáticas (ALT/TGP, AST/TGO).
- Elevação da bilirrubina.
- Erupções cutâneas.
- Prurido.
Efeitos raros, mas graves:
- Lesão hepática induzida por medicamento: a bula alerta para casos de elevação grave de enzimas hepáticas, incluindo casos com elevação de bilirrubina. A maioria foi reversível após a suspensão, mas o monitoramento é obrigatório.
- Reações de hipersensibilidade graves (angioedema, anafilaxia): muito raras.
Monitoramento obrigatório da função hepática
Este é um dos pontos mais importantes da segurança do Veoza:
- Antes de iniciar: dosar ALT, AST, bilirrubina e fosfatase alcalina.
- Primeiros 3 meses: monitorar mensalmente.
- Após 3 meses: monitorar periodicamente, conforme orientação médica.
Se aparecerem sintomas como icterícia (pele/olhos amarelos), urina escura, fezes claras, dor abdominal intensa, náusea persistente ou fadiga inexplicável: suspender o medicamento e procurar o médico imediatamente.
Eficácia comprovada em estudos clínicos
Os estudos de fase 3 que embasaram a aprovação do Veoza incluíram milhares de mulheres na menopausa com sintomas vasomotores moderados a graves.
Os resultados principais mostraram redução de mais da metade das ondas de calor já nas primeiras 4 semanas, melhora contínua ao longo do tratamento e benefícios que vão além da contagem de ondas de calor, como sono melhor, menos interferência nas atividades diárias e melhor bem-estar geral.
Segurança a longo prazo: o que ainda não sabemos
O Veoza foi aprovado com base em estudos de até 52 semanas. No entanto, por ser um medicamento novo, dados de segurança a longo prazo (vários anos) ainda estão sendo coletados. Isso significa que:
- Não há dados sobre uso por mais de 1 ano em grandes populações.
- Não há dados sobre interações com doenças raras ou condições específicas.
- Não há dados sobre uso em mulheres com câncer de mama (estudos específicos estão em andamento).
Por isso, o medicamento deve ser usado sob prescrição e acompanhamento médico, com monitoramento regular.
Situação no Brasil: o que já aconteceu e o que falta
A Anvisa aprovou o registro do Veoza no Brasil em 22 de junho de 2026 (Resolução nº 2.430/2026). Em julho, a Astellas (responsável pelo medicamento) anunciou parceria estratégica com a Hypera Pharma para comercializar um segundo nome comercial do fezolinetanto no Brasil.
Até o momento, o medicamento não está disponível nas farmácias e não tem preço definido pela CMED.
O que falta para chegar às farmácias?
- Precificação pela CMED: a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos precisa aprovar o preço máximo de venda ao consumidor. Sem isso, o medicamento não pode ser comercializado.
- Definição da estratégia de lançamento: a Astellas (marca VEOZA®) e a Hypera (segunda marca) precisam definir preços, canais de distribuição e campanhas de conscientização.
- Treinamento de médicos: a classe é nova, e muitos ginecologistas e clínicos ainda não conhecem o medicamento. A educação médica é essencial para o uso adequado.
Veoza vs. TRH: qual escolher?
A escolha depende do perfil da paciente. Mulheres sem contraindicações e dentro da janela de oportunidade devem considerar a TRH como primeira linha. O Veoza é uma alternativa para quem não pode ou não quer usar hormônios, mas não substitui todos os benefícios da TRH.
Perguntas mais buscadas sobre o Veoza
- Veoza já está disponível no Brasil?
Não. Foi aprovado pela Anvisa em junho de 2026, mas ainda não chegou às farmácias. Não há data oficial de lançamento nem preço definido. - Quanto custa o Veoza no Brasil?
Ainda não há preço oficial. A CMED não divulgou a tabela. Internacionalmente, o custo mensal varia de cerca de € 64 (Europa) a AU$ 80 (Austrália). No Brasil, espera-se um medicamento de alto custo. - Veoza é hormonal?
Não. É um medicamento não hormonal que age no cérebro, bloqueando o receptor NK3, sem repor estrogênio ou progesterona. - Veoza engorda?
O ganho de peso não está entre os efeitos colaterais mais comuns nos estudos clínicos. Os mais frequentes são diarreia, distúrbios do sono e dor de cabeça. No entanto, cada organismo reage de forma diferente, e o médico deve ser informado de qualquer alteração. - Veoza tem contraindicação?
Sim. É contraindicado na gravidez, em caso de alergia ao fármaco e no uso concomitante com inibidores moderados/fortes da CYP1A2 (fluvoxamina, enoxacina, ciprofloxacino, contraceptivos com etinilestradiol). Não é recomendado para pacientes com insuficiência hepática moderada a grave ou insuficiência renal grave. - Veoza faz mal ao fígado?
Pode causar elevação das enzimas hepáticas e, em casos raros, lesão hepática. Por isso, é obrigatório monitorar a função hepática antes e durante o tratamento (mensalmente nos primeiros 3 meses). - Veoza substitui a reposição hormonal?
Não. A TRH continua sendo o tratamento de primeira linha para mulheres sem contraindicações. O Veoza é uma alternativa para quem não pode ou não quer usar hormônios, mas não trata ressecamento vaginal nem previne osteoporose. - Como tomar o Veoza?
45 mg (um comprimido) uma vez ao dia, engolido inteiro, com ou sem alimento, sempre no mesmo horário. Não pode ser partido, mastigado ou triturado. - Quem pode tomar Veoza?
Mulheres na menopausa com ondas de calor e/ou sudorese noturna moderadas a graves, especialmente aquelas com contraindicação ou intolerância à TRH, ou que optam por não usar hormônios. - Veoza é aprovado pela Anvisa?
Sim. O registro foi aprovado em 22 de junho de 2026 (Resolução nº 2.430/2026), mas o medicamento ainda não está disponível nas farmácias. - Veoza tem genérico?
Não. O fezolinetanto é uma molécula nova, protegida por patente. Não há genérico disponível no Brasil nem no mundo. - Veoza pode ser usado por mulheres com câncer de mama?
Ainda não há dados definitivos. Estudos específicos em mulheres com histórico de câncer de mama estão em andamento. A decisão deve ser tomada em conjunto com o oncologista, considerando riscos e benefícios. - Veoza interfere no anticoncepcional?
Sim. Contraceptivos orais contendo etinilestradiol são inibidores moderados da CYP1A2 e não devem ser usados concomitantemente com o Veoza. Além disso, o Veoza não é um método contraceptivo, e mulheres em idade fértil devem usar métodos contraceptivos adequados. - Veoza causa sonolência?
Pode causar distúrbios do sono, incluindo insônia ou sonolência. Recomenda-se cautela ao dirigir ou operar máquinas até que se saiba como o medicamento afeta cada pessoa. - Quanto tempo leva para o Veoza fazer efeito?
Nos estudos clínicos, os primeiros efeitos significativos foram observados já na 4ª semana de tratamento. A melhora continua ao longo das 12 semanas e além.





