Agosto Dourado: tire as principais dúvidas sobre amamentação

Bianca Azevedo

Agosto Dourado: tire as principais dúvidas sobre amamentação

Agosto chegou e, com ele, a cor dourada que simboliza um dos alimentos mais preciosos para a saúde humana: o leite materno. A campanha Agosto Dourado, criada em 1992 pela Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (WABA) em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Unicef, busca conscientizar a sociedade sobre os benefícios do aleitamento e destacar que o apoio à mulher que amamenta deve ser um compromisso coletivo. 

Mas por que essa campanha é tão urgente? Os números ajudam a entender: segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), publicado em 2021, o índice de amamentação exclusiva entre crianças de até seis meses no Brasil é de apenas 45,8%. Isso significa que mais da metade dos bebês brasileiros não está recebendo, nos primeiros seis meses de vida, o alimento que a ciência considera o mais completo e personalizado que existe. 

Por que amamentar é essencial? 

Chamar o leite materno de “padrão ouro” não é exagero. Ele contém todos os nutrientes — proteínas, carboidratos, gorduras, vitaminas e minerais — na proporção ideal para o crescimento e desenvolvimento saudável do bebê, dispensando até mesmo água nos primeiros seis meses. 

Mas a riqueza do leite materno vai muito além da nutrição. Os compostos bioativos presentes no leite materno contribuem para o crescimento adequado do corpo e do cérebro, estabelecendo bases sólidas para o futuro da criança. 

Quais os benefícios da amamentação para o bebê? 

O leite materno é rico em anticorpos, células de defesa e fatores bioativos que protegem o bebê contra uma série de doenças, como diarreias, infecções respiratórias (pneumonia, bronquiolite), otites e alergias. É como se fosse a primeira vacina do bebê. Além disso, a amamentação está associada à redução do risco de doenças crônicas na vida adulta, como obesidade, diabetes tipo 1 e 2, hipertensão e colesterol alto. 

A recomendação da OMS é clara: aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses e continuidade, após a introdução de outros alimentos saudáveis, até os dois anos de idade ou mais 

Quais os benefícios da amamentação para a mãe? 

A amamentação também traz vantagens significativas para a saúde da mãe. Durante o aleitamento, o corpo libera ocitocina e prolactina, hormônios que promovem sensações de prazer, relaxamento e bem-estar. Além disso, a atividade ajuda o útero a contrair e retornar ao tamanho normal mais rapidamente, diminuindo o risco de hemorragias pós-parto. 

Estudos também mostram que amamentar reduz o risco de desenvolver câncer de mama e de ovário, além de diminuir as chances de diabetes tipo 2, hipertensão e obesidade no futuro. 

Principais dúvidas sobre amamentação respondidas 

  1. A amamentação é dolorosa? Sentir dor forte nos primeiros dias é normal?

Não. A amamentação não deve ser dolorosa. Algum desconforto inicial pode ocorrer por causa da descida do leite, do ingurgitamento das mamas ou da adaptação da mãe e do bebê. Dor forte, porém, não deve ser ignorada. 

Se a dor é intensa, a causa mais comum é a pega inadequada. Isso pode levar a fissuras, inflamações e até ao desmame precoce. A correção da pega — com o bebê abocanhando toda a aréola, e não apenas o mamilo — costuma resolver o problema. 

  1. O que é o colostro e por que ele é tão importante?

O colostro é o primeiro leite produzido nos primeiros dias após o nascimento. Sua composição é muito diferente do leite materno maduro. Tem um teor mais alto de proteínas, e grande parte delas está na forma de anticorpos, que ajudam a proteger o bebê contra infecções. O colostro também é rico em minerais e vitaminas A e D. 

É como se fosse a primeira vacina do bebê, oferecendo proteção contra vírus, bactérias e fungos nos primeiros meses de vida. 

  1. Quando o leite “desce”? E se demorar?

Em geral, o leite “desce” entre o terceiro e o quarto dia após o parto. Esse processo, chamado de apojadura, está diretamente relacionado ao estímulo provocado pela sucção do recém-nascido. Quanto maior e mais adequado esse estímulo, maior tende a ser a produção. 

  1. A cesariana pode atrasar a descida do leite?

Sim, mas isso não significa que a amamentação será prejudicada. É recomendado evitar sedação excessiva, fazer o contato pele a pele ainda na sala de parto e iniciar o aleitamento na primeira hora de vida. 

  1. Como saber se o bebê está bem alimentado?

Essa é uma das maiores angústias de quem amamenta. Como não é possível ver quantos ml o bebê está ingerindo, a ansiedade toma conta. Os sinais de que o bebê está bem alimentado são: 

  • Ganho de peso adequado — a maioria dos bebês recupera o peso do nascimento entre 10 e 14 dias  
  • Padrão de urina e fezes — xixi claro e cocô consistente  
  • Bebê alerta e satisfeito entre as mamadas  
  1. De quanto em quanto tempo devo amamentar? 

A amamentação deve ser em livre demanda, ou seja, sempre que o bebê mostrar sinais de fome — e não de acordo com um cronômetro. É sobre responder de forma flexível aos sinais de fome do seu bebê, iniciando as mamadas quando ele as solicita e continuando cada sessão até que ele esteja satisfeito. 

Nos primeiros meses, isso significa de 8 a 12 mamadas por dia, com cada mamada durando entre 15 e 45 minutos. Bebês prematuros, ictéricos ou doentes podem não ter força para acordar e pedir para mamar — nesses casos, é importante acordá-los a cada 3 horas para alimentá-los. 

  1. Posso amamentar se estiver doente ou tomando remédios?

Sim, na maioria dos casos. Continue amamentando, mesmo se estiver com febre. O leite materno carrega seus anticorpos, que podem proteger o bebê da infecção. A recomendação é lavar bem as mãos para evitar a transmissão. 

Sobre medicamentos, a boa notícia é que a maioria é segura: 

  • Analgésicos: paracetamol e ibuprofeno são seguros. Aspirina (325 mg) não deve ser usada; aspirina infantil (81 mg) é segura para mães que precisam  
  • Descongestionantes: devem ser evitados — podem reduzir a produção de leite  
  • Antialérgicos: medicamentos de ação prolongada (como Zyrtec) são preferidos  
  • Anticoncepcionais: podem diminuir o volume de leite; espere a produção estar bem estabelecida (6 semanas ou mais) antes de começar  

Para verificar a segurança de qualquer medicamento, a página da Sociedade Brasileira de Pediatria é a referência mais confiável. 

  1. Posso beber café, comer alimentos específicos ou tomar álcool?

  • Cafeína: Muita cafeína pode fazer com que o bebê não durma bem, choramingue mais ou tenha diarreia. Limite o consumo a duas xícaras (240 ml) por dia. 
  • Álcool: O ideal é não consumir álcool durante a amamentação. Muito álcool pode deixar o bebê sonolento e afetar a descida do leite. Se beber, limite-se a uma taça ocasional de vinho ou cerveja por dia. Amamente antes de beber e espere pelo menos 2 horas antes de amamentar novamente. 
  • Alimentos: Nenhum alimento precisa ser cortado. Alimentos consumidos com moderação geralmente não causam efeito. Se houver suspeita de alergia, um profissional pode ajudar a identificar o alimento. 
  1. Como saber se a pega está correta? O formato do mamilo atrapalha?

Uma pega correta é o fator mais importante para uma amamentação bem-sucedida. Sinais de uma boa pega incluem: 

  • Bochechas cheias e arredondadas 
  • Lábios voltados para fora (como boca de peixe) 
  • Movimentos lentos e profundos, com deglutição audível 
  • Ausência de estalos ou covinhas nas bochechas  

O formato do mamilo pode gerar preocupação, especialmente nos casos de mamilos planos ou invertidos, mas não é, por si só, um impedimento para amamentar. O bebê precisa abocanhar não apenas o mamilo, mas boa parte da aréola. 

  1. O estresse e o nervosismo atrapalham a produção de leite?

Sim. Estudos mostram que o nervosismo e o estresse podem atrapalhar a produção de leite. A adrenalina liberada pelo estresse interfere na quantidade de prolactina, o hormônio responsável pela produção do leite. 

O que fazer? Buscar apoio emocional, descansar sempre que possível, praticar técnicas de respiração e, se necessário, procurar ajuda profissional.  

  1. Chupeta, mamadeira e fórmula atrapalham a amamentação?

Sim, especialmente no início. Oferecer mamadeira com água, chás ou complementos e dar chupetas estão entre os erros mais comuns que prejudicam o aleitamento. 

A introdução de fórmula sem indicação clínica reduz a frequência das mamadas e, consequentemente, o estímulo necessário para a produção de leite. 

  1. O que fazer se o leite estiver “empedrado” ou com dutos bloqueados?

O ingurgitamento mamário, conhecido popularmente como “leite empedrado”, ocorre quando o leite não é drenado adequadamente. A melhor prevenção é a amamentação frequente com pega correta. Sintomas de dutos bloqueados incluem dor localizada, vermelhidão e uma área endurecida na mama. 

O tratamento inclui: 

  • Amamentar com mais frequência do lado afetado 
  • Massagem suave na direção do mamilo durante a mamada 
  • Compressas frias após a mamada para reduzir a inflamação 
  • Se houver febre ou vermelhidão intensa, procurar um médico (pode ser mastite) 
Fontes 

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