
Gonorreia: sintomas, tratamento e tudo o que você precisa saber sobre essa IST
Isabelle Macedo Cabral

- O que é gonorreia?
- Como a gonorreia é transmitida?
- Quais são os sintomas da gonorreia?
- Diferenças entre gonorreia em homens e mulheres
- Complicações: o que acontece se a gonorreia não for tratada?
- Como é feito o diagnóstico?
- Tratamento: como curar a gonorreia?
- Recorrência e reinfecção
- Perguntas frequentes sobre gonorreia
- Como prevenir a gonorreia?
A gonorreia tem muitos nomes: pingadeira, blenorragia, uretrite gonocócica, esquentamento. Mas independentemente do apelido, ela continua sendo uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais comuns no mundo. O problema? Tem se tornado cada vez mais resistente aos antibióticos, e muita gente nem sabe que está infectada. A seguir, explicamos tudo de forma clara e direta: o que é, como pega, quais os sintomas, como tratar e, principalmente, como se proteger.
O que é gonorreia?
A gonorreia é uma infecção causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae (conhecida como gonococo). Ela ataca principalmente as mucosas do corpo – ou seja, as partes mais úmidas e sensíveis.
Ao contrário do que muita gente pensa, a gonorreia não se limita aos órgãos sexuais. A bactéria pode infectar também:
- A garganta (causando faringite gonocócica)
- Os olhos (causando conjuntivite gonorreica)
- O ânus (proctite)
- Em mulheres, o colo do útero e as trompas
- Em homens, a próstata e o epidídimo
A boa notícia é que a gonorreia tem cura. A má notícia é que, se não tratada, pode deixar sequelas graves, incluindo a infertilidade.
Como a gonorreia é transmitida?
A transmissão acontece por meio de relação sexual desprotegida (sem camisinha) com uma pessoa infectada. Todo tipo de contato íntimo pode transmitir a bactéria:
- Sexo vaginal
- Sexo anal
- Sexo oral (tanto no pênis, quanto na vagina ou no ânus)
O risco de infecção por ato sexual desprotegido com uma pessoa infectada é de cerca de 50%, segundo especialistas. Isso significa que a cada duas relações sem proteção, uma pode resultar em contaminação.
A bactéria também pode ser transmitida da mãe infectada para o bebê durante o parto – o que pode causar uma infecção grave nos olhos do recém-nascido, podendo levar à cegueira se não tratada rapidamente.
Importante: a gonorreia não se transmite por beijo, abraço, compartilhamento de talheres, assento de vaso sanitário ou piscina.
Quais são os sintomas da gonorreia?
Os sintomas variam de acordo com o local da infecção. Um detalhe crucial: muitas pessoas infectadas não apresentam sintomas nenhuns, especialmente as mulheres. Por isso a gonorreia é uma “transmissora silenciosa” – a pessoa pode passar a bactéria adiante sem saber que está doente.
Sintomas na uretra (homens e mulheres)
Esta é a forma mais comum. Os sintomas costumam aparecer de 3 a 7 dias após a relação desprotegida:
- Dor ou ardência ao urinar (sensação de “urinar fogo”)
- Corrimento amarelado, esverdeado ou esbranquiçado saindo da uretra (no pênis ou na região vaginal)
- Vontade de urinar com frequência
- Sensação de bexiga cheia mesmo depois de urinar
- Dor ao ter relação sexual
Nos homens, os sintomas costumam ser mais intensos e perceptíveis. Na mulher, muitas vezes são leves ou ausentes.
Sintomas no colo do útero (mulheres)
- Corrimento vaginal anormal (amarelado ou esverdeado)
- Sangramento fora do período menstrual (entre as menstruações ou após a relação sexual)
- Dor na parte baixa da barriga
- Dor durante a relação sexual
Sintomas no ânus (homens e mulheres que fazem sexo anal receptivo)
- Coceira e irritação no ânus
- Dor ao evacuar
- Corrimento ou sangramento anal
- Sensação de “peso” na região anal
Sintomas na garganta (sexo oral)
A faringite gonocócica é muitas vezes assintomática. Quando dá sinais, pode incluir:
- Dor de garganta persistente
- Dificuldade para engolir
- Inchaço na garganta
- Febre baixa
- Gânglios (ínguas) doloridos no pescoço
Sintomas nos olhos
Mais raro em adultos, mas possível (geralmente por contato com secreção contaminada):
- Olho vermelho, inchado
- Secreção amarelada ou esverdeada abundante
- Coceira intensa
- Sensibilidade à luz
Diferenças entre gonorreia em homens e mulheres
Em homens, a gonorreia costuma ser mais evidente. O corrimento uretral e a dor ao urinar são difíceis de ignorar. Isso faz com que os homens busquem tratamento mais rapidamente.
Em mulheres, a infecção é frequentemente silenciosa. O corrimento vaginal pode ser confundido com candidíase ou vaginose bacteriana. O sangramento fora do período pode ser atribuído a outros motivos. Por isso, muitas mulheres só descobrem a gonorreia em exames de rotina – ou quando já desenvolveram complicações.
Complicações: o que acontece se a gonorreia não for tratada?
Deixar a gonorreia “correr solta” no corpo é um erro grave. A bactéria pode se espalhar e causar danos permanentes:
Em homens:
- Epididimite (inflamação do epidídimo, estrutura que armazena os espermatozoides) – pode levar à infertilidade
- Prostatite (inflamação da próstata) – causa dor pélvica, dificuldade para urinar e febre
- Estreitamento da uretra (estenose) – dificulta a saída da urina e pode exigir cirurgia
Em mulheres:
- Doença inflamatória pélvica (DIP) – infecção que atinge útero, trompas e ovários
- Infertilidade – as trompas podem ficar bloqueadas por cicatrizes
- Dor pélvica crônica
- Gravidez ectópica (fora do útero) – risco de vida
- Peritonite (infecção generalizada na pelve) – condição grave que pode levar à morte
Em bebês (contaminação no parto):
- Conjuntivite gonorreica neonatal – inflamação grave nos olhos que pode evoluir para cegueira se não tratada imediatamente
Em qualquer pessoa:
- Infecção disseminada (a bactéria cai na corrente sanguínea) – causa febre alta, lesões na pele, dor nas articulações (artrite séptica) e, raramente, inflamação no coração ou meningite.
Por isso o tratamento precoce não é frescura – é questão de preservar sua saúde e sua fertilidade.
Como é feito o diagnóstico?
Se você teve relação sexual desprotegida e está com sintomas – ou mesmo sem sintomas, mas com histórico de exposição de risco – procure um serviço de saúde. O diagnóstico é simples e está disponível no SUS.
Exames possíveis:
- Coloração de Gram: coleta de secreção (uretra, colo do útero, ânus ou garganta) para visualização direta da bactéria ao microscópio. Resultado rápido.
- Cultura bacteriana: coleta de amostra da secreção, que é colocada em meio de cultura para a bactéria crescer. Demora de 24 a 72 horas. Útil também para testar resistência a antibióticos.
- PCR (teste molecular): detecta o material genético da bactéria. É o exame mais sensível e específico. Pode ser feito com amostra de urina – ideal para triagem em pessoas assintomáticas.
- Papanicolau: em mulheres, o exame de rotina pode sugerir a presença de gonococos, mas não é o método padrão para diagnóstico.
- Testes para outras ISTs: sífilis, HIV, clamídia e hepatites virais devem ser solicitados junto, pois as infecções costumam andar juntas.
O diagnóstico precoce evita complicações e quebra a cadeia de transmissão.
Tratamento: como curar a gonorreia?
Sim, a gonorreia tem cura. O tratamento é feito com antibióticos. Mas há um porém: a bactéria tem se tornado cada vez mais resistente aos medicamentos tradicionais. Por isso, a automedicação é extremamente perigosa.
O tratamento atual recomendado (diretrizes brasileiras e internacionais):
- Ceftriaxona (injetável, dose única) – geralmente 500 mg intramuscular
- Mais Azitromicina (comprimido, dose única) – 1g via oral
Ou, em alguns casos, Doxiciclina (comprimido, por 7 dias) associada à ceftriaxona.
O esquema exato deve ser prescrito por um médico após avaliação. Ele vai considerar a região da infecção, possíveis alergias e se há infecção associada (como clamídia, que costuma acompanhar a gonorreia em até 40% dos casos).
Cuidados essenciais durante o tratamento:
- Tome todos os medicamentos conforme prescrito, mesmo que os sintomas desapareçam antes
- Não interrompa o tratamento antes do fim
- Evite relações sexuais até 7 a 10 dias após o término do tratamento e após a confirmação de que o parceiro também foi tratado
- Avise todas as parcerias sexuais dos últimos 60 dias para que elas também façam exames e tratamento – mesmo que não tenham sintomas
O tratamento é gratuito pelo SUS. Basta procurar um posto de saúde, uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA).
Recorrência e reinfecção
Diferente de algumas doenças virais, não há imunidade após a cura da gonorreia. Você pode pegar a bactéria novamente se tiver relação desprotegida com alguém infectado – inclusive com o mesmo parceiro, se ele não tiver sido tratado.
Por isso, o tratamento do casal ou de todos os parceiros é obrigatório. Tratar apenas um lado é como apagar um incêndio pela metade.
Perguntas frequentes sobre gonorreia
Quanto tempo após a exposição os sintomas aparecem?
O período de incubação é de 3 a 7 dias (podendo chegar a 14 dias). Homens tendem a manifestar sintomas mais rápido. Mulheres podem demorar mais ou nunca apresentar sintomas.
Posso ter relações com camisinha durante o tratamento?
Não. Aguarde 7 a 10 dias após o fim do tratamento e confirme com seu médico. A camisinha protege contra novas infecções, mas você ainda pode transmitir a bactéria enquanto está em tratamento.
Gonorreia na gravidez é perigosa?
Sim. Pode causar aborto espontâneo, parto prematuro e infecção grave nos olhos do bebê (conjuntivite gonorreica). Gestantes devem fazer exames de rotina para ISTs no pré-natal e, se diagnosticadas, recebem tratamento adequado e seguro para a gravidez.
Bebê pode ter gonorreia?
Sim, por contaminação no parto. Por isso, todos os recém-nascidos recebem um colírio antibiótico (nitrato de prata ou eritromicina) logo após nascer, exatamente para prevenir essa infecção ocular. Se o bebê apresentar olhos vermelhos, inchados e com secreção, procure atendimento imediato.
Tenho apenas um parceiro fixo. Posso pegar gonorreia?
Sim. Basta uma relação desprotegida com uma única pessoa infectada. A fidelidade não protege contra ISTs – o uso correto e consistente de camisinha sim.
Gonorreia tem cura?
Sim, com o tratamento adequado. Mas a resistência bacteriana está aumentando, por isso nunca se automedique. O que funcionou para seu amigo há dois anos pode não funcionar mais para você hoje.
Como prevenir a gonorreia?
A prevenção é a melhor estratégia – especialmente com o avanço da resistência bacteriana.
Métodos eficazes:
- Camisinha (preservativo) – masculina ou feminina – em todas as relações sexuais (vaginais, anais e orais). É o método mais eficaz contra gonorreia e outras ISTs.
- Testagem regular – se você tem vida sexual ativa com múltiplos parceiros ou sem proteção consistente, faça exames para ISTs a cada 3 a 6 meses.
- Comunicação com parceiros – converse abertamente sobre testagem e proteção.
- Tratamento simultâneo de parceiros – se você foi diagnosticado, todos os parceiros dos últimos 60 dias devem ser testados e tratados.
O que NÃO previne gonorreia:
- Lavar os genitais após a relação
- Urinar depois do sexo
- Anticoncepcionais (pílula, DIU, implante)
- Douching vaginal
A camisinha é insubstituível. Não existe outro método que previna ISTs com a mesma eficácia.
Fontes:
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – Febrasgo
Ministério da Saúde – panorama de ISTs
Ingrid Cotta, infectologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
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