Clamídia: a IST silenciosa que você precisa conhecer

Isabelle Macedo Cabral

Clamídia: a IST silenciosa que você precisa conhecer

Você provavelmente já ouviu falar em clamídia, mas sabia que ela é a infecção sexualmente transmissível (IST) mais comum do mundo? Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 127 milhões de novos casos por ano globalmente. No Brasil, os números também são altos – e o principal problema é que a maioria das pessoas infectadas não sabe que tem a bactéria. Por isso a clamídia é conhecida como a “IST silenciosa”. A seguir, explicamos tudo o que você precisa saber: o que é, quais os sintomas (quando aparecem), como diagnosticar, tratar e, principalmente, como se proteger. 

O que é clamídia? 

A clamídia é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Chlamydia trachomatis. Ela afeta tanto homens quanto mulheres e pode infectar diferentes partes do corpo: uretra, colo do útero, reto, garganta e até os olhos. 

O grande desafio da clamídia é que ela não dá sinais na maioria dos casos. Estima-se que cerca de 70% a 80% das mulheres infectadas e 50% dos homens infectados não apresentem sintoma nenhum. Isso faz com que a bactéria seja transmitida adiante silenciosamente, enquanto causa danos progressivos dentro do corpo. 

A boa notícia é que a clamídia tem cura. O tratamento é simples, barato e está disponível gratuitamente no SUS. A má notícia é que, se não tratada, pode levar a complicações graves, incluindo infertilidade. 

Como a clamídia é transmitida? 

A transmissão acontece por meio de relação sexual desprotegida (sem camisinha) com uma pessoa infectada. Todo tipo de contato íntimo pode transmitir a bactéria: 

  • Sexo vaginal 
  • Sexo anal 
  • Sexo oral (tanto no pênis, quanto na vagina ou no ânus) 

A bactéria também pode ser transmitida da mãe infectada para o bebê durante o parto normal. Isso pode causar no recém-nascido: 

  • Conjuntivite neonatal (infecção grave nos olhos) 
  • Pneumonia neonatal 
  • Otite média 
  • Problemas respiratórios (apneia, asma) 
  • Em casos mais raros, associação com síndrome da morte súbita 

Importante: a clamídia não se transmite por beijo, abraço, compartilhamento de talheres, assento de vaso sanitário ou piscina. É uma IST, não uma doença do dia a dia. 

Quais são os sintomas da clamídia? 

Como já mencionado, a maioria das pessoas não apresenta sintomas. Quando eles aparecem, geralmente surgem de 1 a 3 semanas após a exposição. 

Sintomas nas mulheres 

Os sintomas na mulher podem ser facilmente confundidos com uma infecção urinária ou vaginal comum. Fique atenta a: 

  • Ardência ou dor ao urinar 
  • Dor durante as relações sexuais (dispareunia) 
  • Dor na região genital ou na parte baixa da barriga (pé da barriga) 
  • Vontade frequente de urinar 
  • Corrimento vaginal anormal (amarelado, claro ou esbranquiçado) 
  • Sangramento fora do período menstrual 
  • Sangramento após a relação sexual 

Sintomas nos homens 

Nos homens, quando aparecem, os sintomas mais comuns são: 

  • Ardência ou dor ao urinar 
  • Corrimento uretral (geralmente claro, esbranquiçado ou amarelado, saindo do pênis) 
  • Eliminação de secreção ou pus pela uretra 
  • Dor ou inchaço nos testículos 
  • Vontade frequente de urinar 
  • Dor durante a relação sexual (menos comum) 

Sintomas no ânus (homens e mulheres que fazem sexo anal receptivo) 

  • Coceira ou irritação anal 
  • Dor ao evacuar 
  • Corrimento ou sangramento anal 

Sintomas na garganta (sexo oral) 

A clamídia na garganta (faringite por clamídia) é quase sempre assintomática. Raramente causa dor de garganta leve ou desconforto para engolir. 

Sintomas nos olhos (contaminação acidental) 

  • Vermelhidão ocular 
  • Coceira 
  • Secreção (geralmente clara ou esbranquiçada) 
  • Sensação de areia nos olhos 

Se você tem vida sexual ativa e apresenta qualquer um desses sintomas, procure um serviço de saúde. Mas lembre-se: a ausência de sintomas não significa ausência de infecção. 

Complicações: o que acontece se a clamídia não for tratada? 

Deixar a clamídia sem tratamento é um erro grave. A bactéria vai se espalhando lentamente e causando danos que podem ser irreversíveis. 

Em mulheres: 

  • Doença inflamatória pélvica (DIP) – a infecção sobe do colo do útero para o útero, trompas e ovários. Causa dor pélvica crônica, febre e secreção purulenta. 
  • Infertilidade – as trompas podem ficar bloqueadas por cicatrizes (aderências), impedindo o encontro do óvulo com o espermatozoide. 
  • Gravidez ectópica (fora do útero) – condição grave que pode levar à ruptura da trompa e hemorragia interna, com risco de morte. 
  • Aumento do risco de câncer de colo de útero – alguns estudos associam a infecção prolongada por clamídia a um maior risco de desenvolvimento do câncer cervical, especialmente em combinação com o HPV. 
  • Maior risco de contrair HIV – a inflamação causada pela clamídia pode aumentar em até 10 vezes a suscetibilidade à infecção pelo HIV. 

Em homens: 

  • Epididimite – inflamação do epidídimo (estrutura que armazena os espermatozoides). Pode causar dor, inchaço nos testículos e, em casos graves, infertilidade. 
  • Prostatite – inflamação da próstata, causando dor pélvica, dificuldade para urinar e febre. 
  • Estenose uretral – estreitamento da uretra, dificultando a saída da urina. 

Em bebês (contaminação no parto): 

  • Conjuntivite gonorreica/clamidial – infecção ocular que pode levar à cegueira se não tratada rapidamente. 
  • Pneumonia intersticial – infecção pulmonar que costuma aparecer entre 1 e 3 meses de vida, com tosse seca e persistente, falta de ar e febre baixa. 

Em qualquer pessoa: 

  • Síndrome de Reiter (artrite reativa) – inflamação que afeta articulações, olhos e uretra, podendo ocorrer semanas após a infecção não tratada. 

A clamídia é uma das principais causas evitáveis de infertilidade feminina no mundo. Tratar precocemente é preservar sua fertilidade. 

Como é feito o diagnóstico? 

O diagnóstico é simples, rápido e disponível no SUS. O exame padrão é o PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), que detecta o material genético da bactéria. 

Como é feita a coleta: 

  • Em mulheres: coleta de secreção do colo do útero (similar ao exame de Papanicolau) ou da uretra. 
  • Em homens: coleta de secreção da uretra (com uma pequena escova ou swab) ou da primeira urina da manhã (ou com pelo menos 2 horas sem urinar). 
  • Na garganta ou no ânus: swab (cotonete) na região, se houver indicação clínica. 

Exames de sangue também podem detectar anticorpos contra a clamídia, mas são menos usados para diagnóstico de infecção ativa porque os anticorpos podem persistir por meses mesmo após a cura. 

Importante: ao solicitar o exame para clamídia, o médico provavelmente vai pedir também testes para gonorreiasífilisHIV e hepatites B e C, pois as ISTs costumam andar juntas. 

Tratamento: como curar a clamídia? 

A clamídia tem cura. O tratamento é feito com antibióticos, geralmente em um esquema curto e simples. 

Esquemas mais comuns (prescritos por médico): 

  • Azitromicina – 1g via oral, em dose única 
  • Doxiciclina – 100 mg via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias 

Ambos são altamente eficazes (acima de 95% de cura), desde que tomados corretamente. O médico escolhe o melhor esquema para você, considerando possíveis alergias, gravidez (azitromicina é segura na gestação; doxiciclina não) e outras condições. 

Cuidados essenciais durante o tratamento: 

  • Tome todos os medicamentos conforme prescrito, mesmo que os sintomas desapareçam antes 
  • Não interrompa o tratamento antes do fim 
  • Evite relações sexuais até 7 dias após o término do tratamento (ou até completar o esquema, no caso da doxiciclina) 
  • Avise todas as parcerias sexuais dos últimos 60 dias para que elas também façam exames e tratamento – mesmo que não tenham sintomas 
  • Faça um teste de cura (exame de controle) cerca de 4 semanas após o fim do tratamento, especialmente se você é gestante ou se há suspeita de má adesão 

O tratamento é gratuito pelo SUS. Basta procurar um posto de saúde, UBS ou CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento). 

O parceiro precisa tratar também? 

Sim, obrigatoriamente. Tratar apenas uma pessoa é como apagar um incêndio pela metade. Se o parceiro (ou parceiros) não for tratado, você pode ser reinfectado imediatamente. 

A orientação padrão é: 

  • Todas as pessoas com quem você teve relação sexual nos últimos 60 dias devem ser informadas, testadas e tratadas 
  • Mesmo que não tenham sintomas – lembre-se: a clamídia é silenciosa 
  • Elas podem procurar a mesma unidade de saúde ou outra de sua preferência. O tratamento para parceiros também é gratuito. 

Reinfecção: posso pegar clamídia de novo? 

Sim. Diferente de algumas doenças virais, o corpo não cria imunidade duradoura contra a bactéria da clamídia. Você pode ser infectado novamente se tiver relação desprotegida com alguém que tem a bactéria – inclusive com o mesmo parceiro, se ele não foi tratado ou foi reinfectado. 

Por isso, a prevenção contínua é essencial. Tratamento não é passe livre para relaxar com a camisinha. 

Clamídia e gravidez 

Grávidas com clamídia não tratada correm riscos sérios: 

  • Parto prematuro 
  • Baixo peso ao nascer 
  • Transmissão da bactéria para o bebê durante o parto (causando conjuntivite ou pneumonia neonatal) 

O lado bom: o tratamento na gravidez é seguro (azitromicina é a opção). Todo pré-natal de qualidade inclui exame para clamídia, especialmente em gestantes jovens ou com múltiplos parceiros. Se você está grávida e tem fatores de risco, converse com seu obstetra sobre a testagem. 

Como prevenir a clamídia? 

A prevenção é simples, mas exige disciplina. 

Métodos eficazes: 

  • Camisinha (preservativo) – masculina ou feminina – em todas as relações sexuais (vaginais, anais e orais). É o método mais eficaz contra clamídia e outras ISTs. 
  • Testagem regular – se você tem vida sexual ativa com múltiplos parceiros ou sem proteção consistente, faça exames para clamídia e outras ISTs a cada 6 a 12 meses, mesmo sem sintomas. 
  • Conversa aberta com parceiros – pergunte sobre testagem, compartilhe seus resultados. 
  • Tratamento simultâneo de parceiros – se diagnosticado, todos os parceiros dos últimos 60 dias devem ser tratados. 

O que NÃO previne clamídia: 

  • Lavar os genitais após a relação 
  • Urinar depois do sexo 
  • Anticoncepcionais (pílula, DIU, implante) 
  • Douching vaginal 

A camisinha é insubstituível. Não existe outro método que previna ISTs com a mesma eficácia. 

Fonte: Dra. Tatielle Teixeira Lemos, ginecologista no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia. Dra. Ana Rita de Tullio Gomes Garrido, ginecologista e obstetra, membro do Departamento Científico de Ginecologia e Obstetrícia da SMCC (Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas). 

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