
Obesidade tem tratamento: como liraglutida pode transformar sua relação com o peso
Isabelle Macedo Cabral

Por Dra. Carolina C. Porto Silva Janovsky, Endocrinologista, Doutora pela UNIFESP e pós-doutora pela USP
CRM-SP 128.897 RQE: 36.249
A obesidade é uma condição de saúde complexa e que, por muito tempo, foi vista como uma questão de força de vontade. Hoje, a ciência nos mostra um cenário muito diferente: a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e que exige uma abordagem médica séria e personalizada. Se você ou alguém que você conhece enfrenta essa jornada, saiba que existem tratamentos eficazes e seguros que podem transformar a relação com o peso e com a saúde. Um desses tratamentos é a liraglutida.
Neste artigo, vamos explorar como a liraglutida atua no organismo, o que os estudos científicos dizem sobre sua eficácia e como ela pode ser uma ferramenta poderosa no tratamento da obesidade, sempre com acompanhamento médico e um estilo de vida saudável.
Obesidade é doença, não falta de força de vontade
Antes de falarmos sobre o tratamento, é fundamental entender que a obesidade é uma doença crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela é influenciada por uma combinação de fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e ambientais. Portanto, a ideia de que a obesidade é simplesmente resultado de “comer demais e se exercitar de menos” é uma simplificação perigosa que gera culpa e frustração.
O corpo de uma pessoa com obesidade funciona de maneira diferente. O cérebro, por exemplo, pode ter dificuldade em reconhecer os sinais de saciedade, levando a um consumo maior de calorias. É por isso que, muitas vezes, apenas dieta e exercício não são suficientes para uma perda de peso sustentável. É aqui que medicamentos como a liraglutida entram como um importante auxílio terapêutico.
Como a liraglutida age no organismo: GLP-1 e regulação do apetite
A liraglutida é um análogo do GLP-1 (peptídeo-1 semelhante ao glucagon), um hormônio que produzimos naturalmente em nosso intestino após as refeições. O GLP-1 tem várias funções importantes no nosso corpo, e a liraglutida imita essas ações de forma mais prolongada.
O mecanismo de ação da liraglutida é duplo e inteligente:
- No cérebro: A liraglutida atua diretamente no hipotálamo, a região do cérebro que controla a fome e a saciedade. Ela aumenta a sensação de saciedade, fazendo com que você se sinta satisfeito com menos comida e por mais tempo.
- No estômago: Ela retarda o esvaziamento gástrico. Isso significa que a comida permanece no estômago por mais tempo, o que também contribui para a sensação de saciedade prolongada.
Essa ação combinada ajuda a reduzir a ingestão de calorias de forma natural, sem a sensação de privação que muitas dietas restritivas causam. Ela também aumenta a secreção de insulina e reduz a produção de glucagon. Por isso, é indicada para tratamento do diabetes tipo 2.
Resultados clínicos: o que esperar da perda de peso com liraglutida
A eficácia da liraglutida no tratamento da obesidade foi comprovada em diversos estudos clínicos. Um dos mais importantes, o estudo SCALE (Satiety and Clinical Adiposity – Liraglutide Evidence), publicado no The New England Journal of Medicine, avaliou mais de 3.700 pessoas com obesidade ou sobrepeso com comorbidades.
Os resultados após 56 semanas foram impressionantes:
|
Grupo |
Perda de peso média |
Pacientes que perderam mais de 5% do peso |
Pacientes que perderam mais de 10% do peso |
|
Liraglutida 3.0 mg |
8,4 kg |
63,2% |
33,1% |
|
Placebo |
2,8 kg |
27,1% |
10,6% |
Esses dados mostram que a liraglutida, associada a um estilo de vida saudável, é significativamente mais eficaz do que apenas dieta e exercício para a perda de peso. É importante ressaltar que os resultados podem variar de pessoa para pessoa, e o tratamento deve ser sempre individualizado.
Quem pode se beneficiar: perfil ideal de paciente
A liraglutida (na dose de 3,0 mg) é indicada para o tratamento de adultos com:
- Obesidade: Índice de Massa Corporal (IMC) de 30 kg/m² ou mais.
- Sobrepeso: IMC de 27 kg/m² ou mais, com a presença de pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, como pré-diabetes, diabetes tipo 2, hipertensão arterial ou dislipidemia (colesterol alto).
O tratamento com liraglutida não é para todos. A avaliação de um médico é fundamental para determinar se este é o medicamento mais adequado para o seu caso.
Efeitos colaterais e cuidados no uso da medicação
Como todo medicamento, a liraglutida pode causar efeitos colaterais. Os mais comuns são gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Geralmente, esses efeitos são leves a moderados e tendem a diminuir com o tempo, à medida que o corpo se adapta à medicação. Uma estratégia de aumento gradual da dose ajuda a minimizar esses desconfortos.
Existem alguns perfis de pacientes que merecem atenção antes do início do tratamento, por isso, uma conversa franca com seu médico sobre seu histórico de saúde é essencial antes de iniciar o tratamento.
A importância do acompanhamento médico e do estilo de vida saudável
É fundamental reforçar que a liraglutida não é uma “caneta mágica”. Ela é uma ferramenta poderosa que funciona melhor quando integrada a um plano de tratamento completo, que inclui:
- Acompanhamento médico regular: Para ajustar a dose, monitorar os resultados e garantir a segurança do tratamento.
- Plano alimentar equilibrado: Elaborado por um nutricionista, para garantir que você esteja recebendo todos os nutrientes necessários.
- Prática regular de atividade física: Essencial para a perda de peso, manutenção da massa muscular e saúde cardiovascular.
- Apoio psicológico: Para lidar com questões emocionais e comportamentais relacionadas à alimentação.
A jornada de tratamento da obesidade é um processo contínuo de aprendizado e cuidado. Com o apoio de uma equipe multidisciplinar e o uso de tratamentos baseados em evidências, como a liraglutida, é possível transformar sua relação com o peso e conquistar uma vida mais saudável e plena.
Referências
- Clements, J., Kayce, M.S. Liraglutide. The Annals of Pharmacotherapy, 2015.
- Pi-Sunyer, X., Astrup, A., Fujioka, K., Greenway, F., Halpern, A., Krempf, M., … & Wilding, J. P. (2015). A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management. New England Journal of Medicine, 373(1), 11-22. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1411892
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