TDAH: 10 perguntas e respostas sobre o transtorno de déficit de atenção

Isabelle Macedo Cabral

TDAH: 10 perguntas e respostas sobre o transtorno de déficit de atenção

O TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade⁹,²⁰, com início na infância e possível persistência na vida adulta⁵⁶, afetando cerca de 5% a 8% da população mundial². No Brasil, a prevalência de TDAH é semelhante à relatada em todo o mundo, com 7,6% de crianças e adolescentes com idade entre 6 e 17 anos, 5,2% de indivíduos entre 18 e 44 anos e 6,1% de indivíduos maiores de 44 anos apresentando sintomas de TDAH³. 

O objetivo desse artigo é trazer a você, leitor, informações confiáveis sobre a condição crônica que pode impactar a vida de uma pessoa desde a infância até a fase adulta. Confira a seguir 10 perguntas e respostas sobre o TDAH. 

O que é TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade)?

A sigla TDAH representa o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e é um transtorno do neurodesenvolvimento⁹,²⁰.
O TDAH tem causas genéticas, aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida⁵,⁶. É uma condição reconhecida por diretrizes internacionais de saúde⁸. 

Quais são os sintomas mais comuns do TDAH?

Uma das perguntas mais comuns quando falamos sobre TDAH é ‘como o TDAH se manifesta?’, ou seja, quais são os principais sintomas do déficit de atenção com hiperatividade. O TDAH se caracteriza por uma combinação de três tipos de sintomas: desatenção, hiperatividade e impulsividade⁹,¹²,²⁰. 

Desatenção: 

  • Dificuldade em manter a atenção em atividades lúdicas; 
  • Dificuldade de organização, seguir instruções e manter o foco; 
  • Esquecimento de compromissos e atividades diárias; 
  • Evitação de tarefas que exigem esforço mental constante. 

Hiperatividade: 

  • Inquietação, como agitar as mãos ou os pés com frequência; 
  • Dificuldade em permanecer sentado; 
  • Dificuldade em brincar ou se envolver em atividades silenciosas; 
  • Euforia constante. 

Impulsividade: 

  • Dar respostas precipitadas antes que a pergunta seja completada; 
  • Dificuldade em esperar sua vez; 
  • Tendência a interromper os outros constantemente durante uma conversa. 

Na infância, as crianças tendem a ter dificuldades no ambiente escolar e no relacionamento com demais crianças, com os familiares e os professores. Frequentemente são classificados como “avoados”, “vivem no mundo da lua”, “não param no lugar”. Também é comum que crianças com TDAH apresentem mais problemas de comportamento, como a dificuldade com regras e limites. 

Na vida adulta, a desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho é frequente, acompanhada pela desatenção e inquietação. A instabilidade e a impulsividade também causam grandes impactos na vida do adulto com TDAH. ⁵,⁶,²³ 

Como funciona o cérebro de um TDAH?

Estudos científicos mostram que a parte do cérebro afetada pelo TDAH é a região frontal e as conexões dessa parte com o restante do cérebro.  

Em comparação com outras espécies, a região frontal orbital do ser humano é muito mais desenvolvida, e é responsável por diversas coisas que estão relacionadas ao TDAH, como: 

  • Controlar comportamentos inadequados; 
  • Capacidade de prestar atenção; 
  • Memória; 
  • Autocontrole; 
  • Organização; 
  • Planejamento. 

No cérebro com TDAH, ocorre uma alteração no funcionamento do sistema de neurotransmissores, principalmente a dopamina e a noradrenalina.²³ 

TDAH na infância: Em que idade o TDAH pode se manifestar?

O TDAH é um distúrbio que afeta de 3% a 5% das crianças em idade escolar² e sua prevalência é maior entre os meninos. Apesar de o diagnóstico acontecer geralmente entre os 8 e 10 anos de idade, os sinais do TDAH podem ser percebidos antes dos 4 anos em ao menos dois ambientes diferentes (casa, escola, lazer etc.), durante seis meses, no mínimo. ¹⁰,¹¹ 

Diagnóstico de TDAH: como é feito o diagnóstico do TDAH e quais são os critérios?

O diagnóstico do TDAH é sempre clínico, feito com base nos sintomas, dispensando o uso de exames como ressonância e eletroencefalograma⁸,¹³. Os profissionais responsáveis pelo diagnóstico do TDAH são: médicos (como os psiquiatras, pediatras e neurologistas) e psicólogos.  

Para o apoio na decisão médica do TDAH em crianças, uma das ferramentas utilizada é o uso do questionário SNAP-IV¹⁰, que foi construído a partir dos sintomas do Manual de Diagnóstico e Estatística – IV Edição, desenvolvido pela associação Americana de Psiquiatria.  

Para o apoio na decisão médica do TDAH em adultos, o questionário utilizado chama-se ASRS-18⁵, que foi desenvolvido por pesquisadores em colaboração com a OMS. Esta é a versão válida no Brasil.  

Por que o TDAH pode estar associado a outras condições e quais são as principais comorbidades associadas ao TDAH ao longo da vida?

Estima-se que 70% das crianças com TDAH apresentam outra comorbidade ¹⁸,¹⁹, e pelo menos 10% têm três ou mais comorbidades. 

Entre as comorbidades mais comuns, aparece o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), que abrange aproximadamente 1/3 da população com TDAH. Confira abaixo 10 transtornos frequentemente associados ao TDAH: 

  1. Desordem Secundária: 66%; 
  2. Problemas de leitura: 60%; 
  3. TOD (Transtorno Opositivo Desafiador): 33%; 
  4. Transtorno de Ansiedade: 25 a 35%; 
  5. Transtorno de Conduta: 25%; 
  6. Depressão: de 10 a 30%; 
  7. TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo): de 10 a 17%; 
  8. Três ou mais desordens: 10%; 
  9. Transtornos de Leitura: 10%; 
  10. Síndrome de Tourette: 7%. 

Quais são os tratamentos para TDAH disponíveis?

O tratamento do TDAH deve ser multimodal⁸,²⁰, ou seja, uma combinação de medicamentos e profissionais das áreas médicas, saúde mental e pedagógica, orientação aos pais e professores, e técnicas que são ensinadas ao paciente que possui o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade.  

O tratamento com medicamento para TDAH pode ser feito com medicamentos estimulantes⁷ e não estimulantes⁸. Os medicamentos estimulantes (metilfenidato e anfetaminas) são os mais utilizados e apresentam risco de dependência. O tratamento não estimulante para TDAH inclui medicamentos não estimulantes, como é o caso da atomoxetina – que não apresenta o risco de dependência. 

A abordagem terapêutica adotada para o tratamento do TDAH chama-se Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) ²⁰, que no Brasil é atribuída exclusivamente a psicólogos. A TCC ajuda a modificar padrões de pensamento e comportamento, melhorando a gestão dos sintomas e também pode abordar problemas relacionados, como a ansiedade e a depressão. 

Quais são as consequências do TDAH não tratado?

O tratamento do TDAH é fundamental para evitar complicações no desenvolvimento, na vida acadêmica, na vida profissional e na vida social do paciente com o transtorno. Sem tratamento, indivíduos com TDAH podem enfrentar dificuldades persistentes ¹⁷,¹⁹ na escola, no trabalho e em suas relações pessoais, o que pode levar a problemas adicionais, como ansiedade, depressão e baixa autoestima. O tratamento adequado pode reduzir significativamente os sintomas, melhorar a autoestima e promover o bem-estar geral. ¹⁷ 

Além disso, o tratamento do TDAH pode prevenir o desenvolvimento de comportamentos de risco, como o abuso de substâncias, comportamento impulsivo e dificuldades legais. Criar uma rede de apoio sólida e envolver a família e a comunidade no processo de tratamento pode proporcionar um ambiente mais estável e favorável ao crescimento pessoal e ao sucesso. 

TDAH em mulheres: quais são os sintomas do TDAH no ciclo menstrual, na gravidez e na menopausa?

O TDAH está ligado à uma desregulação de neurotransmissores, especialmente a dopamina¹⁸. Os hormônios femininos, especialmente o estrogênio, atuam diretamente nesses sistemas neurotransmissores. Logo, a interação entre hormônios e TDAH evolui ao longo das diferentes fases reprodutivas da mulher. 

  • Puberdade e ciclo menstrual: a chegada da puberdade pode ser um ponto crítico para meninas com TDAH, muitas vezes marcando piora dos sintomas e o surgimento de comorbidades como ansiedade e depressão. A partir disso, o ciclo menstrual é responsável pela flutuação dos sintomas, como aumento da desatenção, maior irritabilidade, menor motivação e até mesmo a redução da eficácia da medicação. 
  • Gravidez e pós-parto: a gravidez é um período de mudanças hormonais extremas. Algumas mulheres podem notar a redução dos sintomas do TDAH durante o período, já outras apresentam piora nos quadros, especialmente se a medicação for paralisada. O risco maior acontece no pós-parto devido à queda abrupta dos hormônios, elevando consideravelmente o risco de Depressão Pós-Parto (DPP). Um estudo indica a prevalência dos sintomas de DPP em mães com TDAH: 57,6%, uma taxa três vezes maior que a da população geral. 
  • Perimenopausa e menopausa: a flutuação hormonal, especialmente a queda geral na produção de estrogênio, pode fazer com que os sintomas fiquem severos: problemas de memória, dificuldades de concentração, fadiga e alterações de humor sobrepõem os sintomas de TDAH. 

Como lidar com o TDAH na vida adulta?

 Acredita-se que mais de 60% das crianças que tiveram TDAH na infância, ingressaram na vida adulta com sintomas. ⁵,⁶ 

Uma das maiores dificuldades enfrentadas por adultos com TDAH é manter a produtividade no ambiente do trabalho ¹⁸: a dificuldade em se concentrar, a desorganização crônica e a tendência à procrastinação afetam negativamente as carreiras de pessoas com TDAH. Pesquisas apontam que indivíduos com TDAH têm maior propensão a ter um histórico de empregos instáveis¹⁹. Colaboradores, adultos com TDAH são 18 vezes mais propensos a serem demitidos e têm de 30% a 60% menos chance de atingir níveis mais altos em suas carreiras, quando comparados a seus pares neurotípicos. 

Dificuldades nos relacionamentos também fazem parte da realidade dos adultos com TDAH. A impulsividade e a distração podem levar à irritabilidade, mal-entendidos e conflitos constantes com familiares e parceiros. Um estudo da Journal of Attention Disorders mostrou que 58% dos adultos com TDAH relatam ter sérios problemas em seus relacionamentos românticos, não raro, resultando em separações ou divórcios. 

Outro desafio é a gestão financeira: adultos com TDAH relatam problemas com impulsividade na hora de gastar, o que pode levar ao endividamento. Um estudo aponta que 30% dos adultos com TDAH têm problemas financeiros crônicos! 

Para minimizar os efeitos negativos do TDAH na vida adulta, algumas abordagens têm se mostrado eficazes: 

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Esse tipo de terapia é amplamente utilizado no tratamento de adultos com TDAH. A TCC ajuda a pessoa a identificar padrões de comportamento negativos e a desenvolver habilidades práticas de organização e gerenciamento emocional. )²⁰ 
  • Mindfulness e Meditação: Técnicas de meditação e mindfulness²¹ podem auxiliar na regulação emocional e no aumento da concentração. Estudos indicam que a prática regular de mindfulness reduz a impulsividade e melhora a atenção em pessoas com TDAH. 
  • Ajustes no Ambiente de Trabalho: Adaptar o ambiente de trabalho para pessoas com TDAH pode ser crucial. Exemplos incluem espaços mais silenciosos, a utilização de fones de ouvido para reduzir distrações e reuniões mais curtas e objetivas. 
  • Rede de Apoio: Contar com uma rede de apoio é essencial. Participar de grupos de suporte como aqueles oferecidos pela ABDA pode ajudar a pessoa a compartilhar experiências e aprender novas estratégias de enfrentamento. 

Este artigo é uma parceria entre Apsen Farmacêutica e RD Saúde. O conhecimento é fundamental para o enfrentamento do TDAH de forma correta. Se você se identificou com esse conteúdo, procure orientação médica para investigação e tratamento do TDAH. Isso traz benefícios significativos para a saúde e a qualidade de vida. 

Para mais informações sobre saúde e bem-estar, leia os demais artigos aqui do blog! 

Conteúdo revisado por profissionais da área da saúde. As informações não substituem avaliação médica individual. 

Referências

1  Xu G, Strathearn L, Liu B, Yang B, Bao W. Twenty-Year Trends in Diagnosed Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Among US Children and Adolescents, 1997–2016. JAMA Network Open. 2018;1(4):e181471.  

2  Ministério da Saúde (Brasil). Entre 5% e 8% da população mundial apresenta Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/entre-5-e-8-da-populacao-mundial-apresenta-transtorno-de-deficit-de-atencao-com-hiperatividade  

3  Arruda MA, Querido CN, Bigal ME, Polanczyk GV. ADHD and Mental Health Status in Brazilian School-Age Children. Journal of Attention Disorders. 2015;19(1):11–17.  

4 Jernelöv S, Larsson Y, Llenas M, Nasri B, Kaldo V. Effects and clinical feasibility of a behavioral treatment for sleep problems in adult ADHD. BMC Psychiatry. 2019.  

5  Fayyad J, Sampson NA, Hwang I, et al. The descriptive epidemiology of DSM-IV Adult ADHD in the World Health Organization World Mental Health Surveys. ADHD Attention Deficit and Hyperactivity Disorders. 2017.  

6  Simon V, Czobor P, Bálint S, Mészáros Á, Bitter I. Prevalence and correlates of adult ADHD: Meta-analysis. British Journal of Psychiatry. 2009.  

7  Schulz E, Fleischhaker C, Hennighausen K, et al. Efficacy and safety of Ritalin LA in children with ADHD.  

8  CONITEC. Relatório de recomendação de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas – TDAH. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/consultas/relatorios/2022/20220311_relatorio_cp_03_pcdt_tdah.pdf  

9  Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). O que é TDAH. Disponível em: https://tdah.org.br/sobretdah/o-que-e-tdah/  

10  Kestelman I. Diagnóstico em crianças. ABDA, 2017. Disponível em: https://tdah.org.br/diagnostico-criancas/  

11  Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). Perguntas mais frequentes e suas respostas. Disponível em: https://tdah.org.br/perguntas-mais-frequentes-e-suas-respostas/  

12  Veja Saúde. TDAH: o que é, como identificar e tratamentos. Disponível em: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/tdah-o-que-e-como-identificar-e-tratamentos  

13  Instituto de Neurociência de Brasília. TDAH: guia completo. Disponível em: https://incb.com.br/tdah-guia-completo/  

14  Folquitto CTF. Desenvolvimento psicológico e TDAH: a construção do pensamento operatório. Dissertação (Mestrado) – USP, 2009. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-21032009-095322/publico/camila_tarif_folquitto.pdf  

15  TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade). Portal do Drauzio Varella. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/pediatria/tdah-transtorno-do-deficit-de-atencao-com-hiperatividade/  

16 TDAH: a importância do tratamento durante a infância e a vida adulta. Portal do Drauzio Varella. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/videos/tdah-a-importancia-do-tratamento-durante-a-infancia-e-a-vida-adulta/  

17  Biederman J, et al. Impact of attention-deficit hyperactivity disorder on quality of life in children and adults. American Journal of Psychiatry. 2006.  

18  Barkley RA, Murphy KR, Fischer M. ADHD in Adults: What the Science Says. Guilford Press; 2008.  

19  Murphy K, Barkley RA. Attention deficit hyperactivity disorder in adults: comorbidities and adaptive impairments. Comprehensive Psychiatry. 2006.  

20  Solanto MV, et al. Cognitive-Behavioral Therapy for Adult ADHD: Targeting Executive DysfunctionGuilford Press; 2010.  

21 Zylowska L, et al. Mindfulness meditation training in adults and adolescents with ADHD: A feasibility study. Journal of Attention Disorders. 2008.

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