Cansaço e indisposição: por que sinto isso ao usar as canetas?

fcsilveira

Cansaço e indisposição:  por que sinto isso ao usar as canetas?

Você iniciou o tratamento com canetas injetáveis e já percebeu algumas mudanças tanto nos hábitos quanto no corpo.  

A fome e a vontade de comer que tinha antes diminuíram, e o peso vem reduzindo a cada dia que passa. Mas também notou que está sentindo um cansaço muito grande. 

Será que é algum efeito colateral? A dosagem da medicação está correta? Isso é normal de acontecer? 

Não existe necessariamente uma única explicação, mas conversamos com a nutricionista Fernanda Lancellotti (CRN3 29223) para tirar dúvidas e explicar um pouco mais sobre o como a rotina alimentar pode ser um fator que contribui significativamente para essa sensação.  

Nutri, como o medicamento pode estar relacionado ao cansaço? 

Fernanda L.: Os medicamentos análogos de GLP-1 atuam em mecanismos relacionados à regulação do apetite. Eles podem aumentar a saciedade e reduzir a fome, fazendo com que você tenha menos vontade de comer. 

Alguns também podem desacelerar o processo de esvaziamento do estômago. Com isso, você pode sentir saciedade por mais tempo e acabar consumindo menos alimentos ao longo do dia. 

Essa mudança é parte do efeito esperado do tratamento. Porém, quando a ingestão de alimentos ou líquidos fica muito baixa, outros fatores podem contribuir para esse cansaço. 

O que pode estar por trás da falta de disposição? 

Fernanda L.: Vamos por partes, pensando nesse cansaço como uma investigação. Em vez de procurar um único culpado, precisamos observar 4 fatores fundamentais.  

  1. Como anda a sua alimentação?

Com menos fome, é fácil reduzir demais a quantidade de alimentos ou passar muitas horas sem comer, o que é muito perigoso para a saúde.  

Se a alimentação ficar pouco variada e escassa por um período prolongado, pode ser mais difícil consumir nutrientes importantes. 

Ferro, vitamina B12, vitamina D e magnésio, por exemplo, participam de diferentes funções do organismo. E, quando há falta de alimentos com esses nutrientes, precisamos investigar se isso causou alguma carência nutricional através de exames. 

O que eu costumo aconselhar é: coma alguma coisa, mesmo que sejam refeições menores. Estipule horários, coloque no prato apenas o que consegue comer e não espere a fome aparecer para se alimentar, pois ela pode não chegar e você acaba ficando ainda mais tempo sem a nutrição que o corpo necessita.  

  1. Você tem se hidratado com frequência?

Fernanda L.: A redução do apetite pode vir acompanhada de mudanças na ingestão de líquidos. Náuseas, vômitos ou diarreia, quando acontecem, também podem aumentar essa perda de líquidos. 

Manter uma boa hidratação é ainda mais crucial durante o tratamento. Mesmo que não goste de beber água ou não esteja conseguindo, separe uma garrafa e tente dar pequenos goles ao longo do dia. Variar a ingestão de líquidos com chás e sucos naturais também são estratégias interessantes.  

  1. Como está a dosagem do seu tratamento?

Fernanda L.: O início do tratamento e os períodos de ajuste da dose também merecem atenção. 

Nessas fases, o organismo está se adaptando ao medicamento e podem surgir efeitos que interferem na alimentação, na hidratação ou na disposição. 

Se o cansaço começou depois de iniciar o medicamento ou ficou mais intenso após uma mudança de dose, conte isso à equipe que acompanha seu tratamento. 

  1. 4. Já pensou que exercício físico pode ajudar?

Fernanda L.: Sei que muita gente acha estranho recomendar atividade física quando a reclamação é cansaço, mas, acredite, faz diferença.  

A prática de atividade física libera hormônios, como a endorfina, que alivia dores e traz uma forte sensação de bem-estar e euforia. Além de otimizar o sistema cardiovascular e muscular, reduzindo a sensação de fadiga no dia a dia, e ajudar a regular o sono.  

Ou seja, mesmo sentindo cansaço, fazer uns 20 minutos de alguma atividade por dia já causa impactos muito positivos para o corpo e mente. 

Quais dicas você dá para colocar tudo isso em prática? 

Fernanda L.:  

  • Alimente-se de forma estratégica: mesmo com menos fome, priorize alimentos que fornecem energia sustentada: proteínas de qualidade, como ovos, peixes, frango, leguminosas; carboidratos complexos, como aveia, arroz integral e batata-doce; vegetais ricos em ferro, como espinafre, brócolis e couve; frutas variadas.
     
  • Não pule refeições: coma em horários regulares, mesmo sem fome intensa. Refeições pequenas e frequentes ajudam a manter a energia estável ao longo do dia.
     
  • Hidrata-se o máximo que puder: coloque lembretes no celular, se necessário. A desidratação é uma causa comum e facilmente corrigível de cansaço.
     
  • Pratique atividade física: se movimentar pode aumentar a energia. A recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) é de 150 minutos por semana de exercício aeróbico, como caminhada, corrida e natação); e 2 a 3 vezes por semana de exercício de força, como musculação e pilates.
     
  • Priorize o sono e um bom descanso: estabeleça uma rotina de sono regular, de 7 a 9 horas por noite. Evite café ou outras bebidas energéticas no final da tarde e à noite. O cuidado com o sono irá ajudar na manutenção dos seus resultados e na sua saúde durante o tratamento e após ele. 

Muito importante lembrar: se a falta de disposição estiver persistente ou intensa, não tente descobrir o motivo e nem se medicar ou suplementar por conta própria.  

Buscar uma avaliação médica se faz necessário para analisar o que está acontecendo e orientar os próximos passos.   

O mais importante é cuidar do tratamento como um conjunto: medicamento, alimentação, hidratação, movimento e acompanhamento profissional. 

 

Referências:

Nutritional Priorities to Support GLP-1 Therapy for Obesity: A Joint Advisory From the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and the Obesity Society. Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M, et al. The American Journal of Clinical Nutrition. 2025;122(1):344-367. doi:10.1016/j.ajcnut.2025.04.023. 

American Association of Clinical Endocrinology Consensus Statement: Algorithm for the Evaluation and Treatment of Adults With Obesity/Adiposity-Based Chronic Disease – 2025 Update. Nadolsky K, Garvey WT, Agarwal M, et al. Endocrine Practice : Official Journal of the American College of Endocrinology and the American Association of Clinical Endocrinologists. 2025;31(11):1351-1394. doi:10.1016/j.eprac.2025.07.017. 

Managing Adverse Effects of Incretin-Based Medications for Obesity. Kushner RF,

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