
Dor de garganta: causas, o que fazer e quando se preocupar
Isabelle Macedo Cabral

- O que é “garganta inflamada”?
- Sintomas da garganta inflamada
- Quais são as causas da dor de garganta?
- Inflamações não infecciosas
- Fatores ambientais e hábitos
- Uso excessivo da voz (disfunção vocal)
- Dor de garganta pode ser COVID?
- O que fazer para aliviar a dor de garganta?
- Quando procurar um médico?
- Tipos específicos de inflamação na garganta
Quem nunca acordou com aquele incômodo na hora de engolir, uma sensação de “areia” ou uma dor que piora ao falar? A garganta inflamada é uma das queixas mais comuns nos consultórios médicos e farmácias. Mas você sabia que ela não é uma doença – e sim um sintoma? Isso significa que entender o que está causando a dor é essencial para tratar certo. A seguir, explicamos as principais causas, o que realmente funciona para aliviar e os sinais de alerta que merecem atenção médica.
O que é “garganta inflamada”?
A garganta é uma região complexa, formada por três estruturas principais:
- Cavidade oral: a parte da boca, por onde os alimentos passam depois de mastigados
- Faringe: o local onde as vias respiratória e digestiva se encontram
- Laringe: a parte mais inferior, onde fica o pomo de adão (popular “gogó”)
Quando qualquer uma dessas regiões sofre uma agressão (por vírus, bactérias, substâncias irritantes ou esforço), ocorre uma inflamação. O resultado é a dor, vermelhidão, inchaço e, muitas vezes, a sensação de que tem algo “preso” na garganta.
A grande maioria das dores de garganta é viral e resolve sozinha em poucos dias. Mas alguns casos são bacterianos e exigem antibiótico. A diferença entre um e outro é fundamental.
Sintomas da garganta inflamada
Os sintomas podem variar de leve a intenso, a depender da causa e da resposta imunológica de cada pessoa.
Sintomas mais comuns:
- Dor local, que piora ao engolir (odinofagia)
- Dificuldade para engolir (sensação de “bolo” na garganta)
- Tosse seca ou produtiva
- Diminuição do apetite (comer dói)
- Sensação de boca seca e sede aumentada
- Febre (geralmente baixa, mas pode ser alta em infecções bacterianas)
- Ínguas (gânglios) doloridos na lateral do pescoço
- Rouquidão ou perda da voz
Sinal de alerta: pus na garganta
O pus é um líquido espesso, amarelado ou esverdeado, com odor desagradável. Ele aparece quando há uma infecção bacteriana instalada – as mais comuns são causadas pela bactéria Streptococcus pyogenes (o famoso “estreptococo”).
Nem todo pus significa algo grave, mas todo pus merece avaliação médica. Só um profissional pode diferenciar uma infecção bacteriana (que precisa de antibiótico) de uma viral (que não se trata com antibiótico).
Quais são as causas da dor de garganta?
Listamos as principais causas, organizadas por categoria, para você entender o que pode estar acontecendo.
Infecções virais (a causa mais comum – cerca de 80% a 90% dos casos)
- Resfriado comum: causado por diversos vírus (rinovírus, adenovírus, etc.). Além da dor de garganta, há coriza, espirros e mal-estar leve.
- Gripe: causada pelo vírus influenza. Os sintomas são mais intensos: febre alta, dor no corpo, tosse seca e cansaço extremo.
- COVID-19: a dor de garganta é um sintoma frequente, especialmente nas variantes mais recentes (como a Ômicron). Pode vir acompanhada de tosse, febre, perda de olfato/paladar (menos comum hoje) e cansaço.
Tratamento para causas virais: repouso, hidratação, analgésicos e antitérmicos. Antibióticos não funcionam contra vírus.
Infecções bacterianas (menos comuns, mas mais graves)
- Amigdalite bacteriana (estreptocócica): as amígdalas ficam muito inchadas, com pus (pontos brancos ou placas), febre alta (acima de 38,5°C) e ínguas doloridas no pescoço. Geralmente não tem tosse ou coriza – esse é um sinal importante de diferença.
- Faringite bacteriana: inflamação da faringe causada por bactérias, com sintomas similares.
- Escarlatina: infecção por estreptococo que causa dor de garganta intensa, febre e uma erupção vermelha áspera pelo corpo (como lixa).
Tratamento para causas bacterianas: antibióticos (geralmente amoxicilina ou penicilina), sob prescrição médica obrigatória. O tratamento não deve ser interrompido antes do fim, mesmo que os sintomas melhorem.
Inflamações não infecciosas
- Rinite alérgica: o gotejamento pós-nasal (secreção que escorre do nariz para a garganta) irrita a região, causando dor e coceira. O tratamento é com anti-histamínicos e lavagem nasal.
- Sinusite: a inflamação dos seios da face causa secreção espessa que escorre pela garganta, irritando-a. Dor facial, dor de cabeça e febre podem acompanhar.
- Refluxo gastroesofágico: o ácido do estômago sobe para o esôfago e chega até a garganta (especialmente à noite, ao deitar). Causa dor crônica, gosto amargo na boca, tosse seca e rouquidão matinal. O tratamento é com mudanças de hábitos e medicamentos que reduzem a acidez (como inibidores de bomba de prótons).
- Laringite ou faringite não infecciosa: pode ser causada por esforço vocal excessivo (cantores, professores, narradores), inalação de substâncias irritantes (produtos químicos, fumaça) ou mudanças bruscas de temperatura.
Fatores ambientais e hábitos
- Tempo seco: o ar ressecado irrita as mucosas da garganta e do nariz, especialmente em regiões de baixa umidade ou com uso excessivo de ar-condicionado.
- Consumo excessivo de álcool: o álcool irrita e resseca a garganta, além de diminuir a imunidade local.
- Bebidas e alimentos muito quentes: podem causar queimaduras na mucosa, gerando inflamação e aumentando o risco de lesões crônicas.
- Tabagismo (cigarros, vape): a fumaça (mesmo a do cigarro eletrônico) é altamente irritante para toda a via aérea.
Uso excessivo da voz (disfunção vocal)
Cantores, atores, professores, telemarketing e palestrantes usam a voz como ferramenta de trabalho. Sem técnica adequada e pausas, podem desenvolver:
- Inflamação crônica da garganta
- Rouquidão persistente
- Nódulos nas cordas vocais (pólipos)
O tratamento envolve repouso vocal, hidratação, fonoaudiologia e, em casos graves, cirurgia.
Dor de garganta pode ser COVID?
Sim. A dor de garganta é um sintoma muito comum da COVID-19, especialmente nas variantes mais recentes (Ômicron e subvariantes). Diferente das primeiras cepas, hoje a dor de garganta pode ser o primeiro sintoma ou até o único.
Se você tem dor de garganta + febre + tosse + cansaço, ou se teve contato com alguém com COVID confirmado, faça um teste (antígeno ou RT-PCR). O isolamento precoce evita a transmissão.
O que fazer para aliviar a dor de garganta?
O tratamento depende da causa, mas algumas medidas ajudam a aliviar o desconforto em praticamente todos os casos.
Medidas gerais (sempre úteis)
- Hidrate-se muito: água, água de coco, chás mornos (não quentes). A hidratação mantém a mucosa úmida e facilita a eliminação de secreções.
- Repouse a voz: evite falar muito, gritar ou sussurrar (sussurrar força ainda mais as cordas vocais).
- Use umidificador ou coloque uma bacia com água no quarto: ajuda em dias secos ou com ar-condicionado ligado.
- Faça gargarejos com água morna e sal (meia colher de chá de sal em um copo de água morna): ajuda a limpar a região e reduz a inflamação leve.
- Evite irritantes: fumaça de cigarro, ambientes com poeira, bebidas alcoólicas, alimentos muito quentes ou muito gelados, comidas condimentadas ou ácidas (como limão, vinagre, tomate).
Remédios para alívio dos sintomas (venda livre, mas com orientação)
- Analgésicos e antitérmicos: paracetamol ou dipirona ajudam na dor e na febre. Ibuprofeno também reduz a inflamação, mas tem mais efeitos colaterais.
- Pastilhas para garganta: contêm anestésicos locais (como lidocaína ou benzocaína) e/ou anti-inflamatórios. Aliviam a dor temporariamente, mas não curam a infecção.
- Sprays para garganta: ação similar às pastilhas, com aplicação direta. Podem conter própolis (antisséptico natural) ou anestésicos sintéticos.
- Xaropes: alguns xaropes têm ação emoliente (formam uma película protetora) ou antitussígena (para tosse seca). Não são a primeira escolha para dor isolada.
Importante: pastilhas, sprays e xaropes aliviam, mas não tratam a causa. Use-os por poucos dias. Se a dor persistir, procure um médico.
Chás e remédios caseiros (com moderação)
Alguns chás ajudam no alívio, mas não substituem tratamento médico quando necessário:
- Chá de camomila: ação calmante e anti-inflamatória leve
- Chá de gengibre com mel: o gengibre tem ação anti-inflamatória, o mel é emoliente (reveste a garganta)
- Chá de alcaçuz: tradicionalmente usado para dores de garganta, mas com cautela em hipertensos
Cuidado: bebidas muito quentes podem queimar a mucosa e piorar o quadro. Prefira morno.
O que NÃO funciona (e pode piorar)
- Gargarejo com água oxigenada ou vinagre puro: agride a mucosa
- Limão puro na garganta: o ácido cítrico irrita ainda mais a inflamação
- Álcool ou cachaça com mel: o álcool desidrata e irrita
- Antibióticos sem prescrição: além de não funcionarem para vírus, contribuem para a resistência bacteriana
Quando procurar um médico?
Dor de garganta comum, associada a resfriado ou gripe, geralmente melhora sozinha em 3 a 7 dias. Mas alguns sinais indicam que você precisa de avaliação médica:
- Dor de garganta que dura mais de 5 dias sem melhora
- Febre alta (acima de 38,5°C) persistente por mais de 2 dias
- Pus (placas brancas ou amareladas) nas amígdalas ou na garganta
- Dificuldade intensa para engolir (não consegue nem tomar líquidos)
- Dificuldade para respirar ou sensação de garganta fechando
- Ínguas (gânglios) muito grandes e doloridas no pescoço
- Erupção na pele (manchas vermelhas pelo corpo)
- Dor de garganta recorrente (várias vezes ao ano)
- Sangramento na saliva ou escarro
- Rouquidão por mais de 2 semanas (pode indicar nódulos ou problema nas cordas vocais)
Em crianças pequenas, fique atento também à recusa alimentar (não quer comer nem beber), baba excessiva (porque dói engolir a saliva) e prostração (muita moleza, sem reação).
Se você tem febre alta + pus na garganta + ausência de tosse, é muito provável que seja uma infecção bacteriana (estreptococo) – e você precisa de antibiótico prescrito por médico.
Tipos específicos de inflamação na garganta
Amigdalite
Inflamação das amígdalas (as duas estruturas arredondadas no fundo da garganta). Pode ser viral (mais comum) ou bacteriana (mais grave). Sintomas: dor intensa ao engolir, febre, pus (na bacteriana), ínguas no pescoço.
Faringite
Inflamação da faringe (região média da garganta). Muito comum em gripes e resfriados. Dor ao engolir, vermelhidão difusa, tosse seca.
Laringite
Inflamação da laringe (região das cordas vocais). O sintoma principal é a rouquidão ou perda da voz. Pode ser viral (após gripe) ou por esforço vocal.
Prevenção: como evitar dores de garganta recorrentes
- Lave as mãos com frequência – vírus e bactérias entram pela boca e nariz
- Evite compartilhar copos, talheres ou escovas de dente
- Mantenha a umidade do ar adequada (ideal entre 40% e 60%)
- Beba água regularmente – mucosa hidratada é mais resistente
- Não fume (cigarro, vape, narguilé) e evite ambientes enfumaçados
- Trate alergias e refluxo – essas causas crônicas merecem acompanhamento médico
- Use a voz com técnica adequada – professores, cantores e palestrantes devem fazer pausas e se hidratar
- Durma bem e gerencie o estresse – imunidade baixa favorece infecções
- Vacine-se contra gripe e COVID-19 – reduz o risco de infecções virais graves
A maioria das dores de garganta melhora sozinha em poucos dias. Mas saber diferenciar um resfriado simples de uma infecção bacteriana que precisa de antibiótico pode evitar complicações como abscessos (coleções de pus), febre reumática (nos casos de estreptococo não tratado) ou até problemas renais.
Fontes: BVS Ministério da Saúde e Manual MSD.
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