Afta: o que causa, como tratar e quando se preocupar

Isabelle Macedo Cabral

Afta: o que causa, como tratar e quando se preocupar

Você já estava pronto para aquela refeição favorita, mas um pequeno ponto branco e dolorido na boca estragou o prazer. Se sim, você conhece bem a afta. Essa feridinha minúscula, mas de dor desproporcional, é uma das queixas bucais mais comuns no Brasil – são mais de 2 milhões de casos por ano. Mas afinal, o que exatamente são as aftas? Por que elas aparecem? E o que realmente funciona para aliviar o incômodo? A seguir, explicamos tudo o que você precisa saber. 

O que é afta? 

A afta é uma pequena úlcera (ferida) rasa, de formato geralmente redondo ou oval, que aparece na mucosa da boca. Ela tem uma cor esbranquiçada ou amarelada no centro e é cercada por um anel vermelho e inflamado. O tamanho costuma variar de alguns milímetros a até um centímetro. 

Essas feridas podem surgir em diversos pontos da boca: na parte interna das bochechas, na gengiva, na língua (especialmente nas laterais e na ponta), no lábio interno, no céu da boca e até na garganta (mais raro). O grande incômodo é que qualquer contato – ao falar, mastigar, engolir ou escovar os dentes – provoca dor, ardência ou queimação. 

Quais são os sintomas da afta? 

Os sintomas costumam aparecer antes mesmo de a ferida ficar visível. Muitas pessoas relatam uma sensação de ardência, formigamento ou queimação no local um ou dois dias antes de a afta surgir. 

Quando a ferida já está instalada, os sintomas mais comuns incluem: 

  • Dor localizada, que piora com o contato (alimentos, escovação, fala) 
  • Ardência e sensação de queimação 
  • Pequeno sangramento ao toque ou escovação 
  • Vermelhidão ao redor da lesão 
  • Desconforto ao comer alimentos ácidos, salgados, quentes ou condimentados 
  • Perda temporária do paladar na região afetada 

Em casos mais graves, quando várias aftas aparecem ao mesmo tempo ou são muito grandes, podem surgir também: 

  • Gânglios inchados no pescoço (ínguas) 
  • Cansaço 
  • Febre baixa 

O que causa o aparecimento das aftas? 

Não existe uma única causa para as aftas. Na verdade, elas costumam ser a ponta final de um “punhado” de fatores que se combinam. Os principais gatilhos incluem: 

Fatores locais (traumas e agressões físicas): 

  • Mordida acidental na bochecha ou língua 
  • Escovação agressiva ou com cerdas duras 
  • Pontas de dentes quebrados ou restaurações mal ajustadas 
  • Aparelhos ortodônticos, próteses ou dentaduras que machucam a mucosa 
  • Queimaduras por alimentos ou bebidas quentes 
  • Alimentos pontiagudos (como biscoitos ou torradas) 

Fatores internos e imunológicos: 

  • Estresse e ansiedade – os grandes vilões, segundo especialistas 
  • Baixa imunidade (após gripes, resfriados ou noites mal dormidas) 
  • Mudanças hormonais (comuns em mulheres durante o ciclo menstrual) 
  • Predisposição genética (há famílias em que as aftas são mais frequentes) 

Deficiências nutricionais: 

  • Falta de ferro (anemia) 
  • Carência de vitamina B12 
  • Baixos níveis de ácido fólico 
  • Deficiência de zinco 

Alimentação e hábitos: 

  • Consumo excessivo de alimentos ácidos (abacaxi, laranja, limão, tomate) 
  • Alimentos muito condimentados ou salgados 
  • Sensibilidade a alguns ingredientes, como o lauril sulfato de sódio presente em certos cremes dentais 

Condições de saúde associadas: 

  • Doenças inflamatórias intestinais (como doença de Crohn e retocolite) 
  • Doenças que afetam o sistema imunológico (como lúpus) 
  • Refluxo gastroesofágico 
  • Em casos raros, infecções virais ou bacterianas 

Afta é contagiosa? 

Não. Diferente do herpes labial (causado por vírus), a afta comum não é contagiosa. Você não pega afta beijando alguém, compartilhando copos ou talheres. Portanto, pode ficar tranquilo: não há transmissão direta de pessoa para pessoa. 

Quanto tempo dura uma afta? 

Na maioria dos casos, as aftas desaparecem sozinhas em um período de 10 a 14 dias. Nos primeiros dias, a dor costuma ser mais intensa; depois, a ferida começa a regredir gradativamente, sem deixar cicatriz. 

Quando se preocupar com a duração?

Se a afta persistir por mais de 14 dias sem sinais de melhora, ou se novas aftas surgirem antes das antigas cicatrizarem, é hora de procurar um dentista ou médico. Lesões que não cicatrizam podem (em raríssimos casos) ser um sinal de outras doenças, inclusive câncer bucal – mas atenção: isso é exceção, não regra. A grande maioria das aftas persistentes ainda é benigna, mas merece investigação. 

 Como é feito o diagnóstico? 

O diagnóstico é clínico. Isso significa que um cirurgião-dentista ou um médico avalia a ferida pelo aspecto, localização e histórico do paciente. Não existe um exame específico para aftas. 

Em situações especiais, quando a lesão é muito grande, dura mais de três semanas, ou há suspeita de outra doença, o profissional pode solicitar uma biópsia (retirada de um pequeno fragmento da lesão para análise laboratorial). 

Tratamento: o que realmente funciona? 

Não existe um tratamento que cure a afta de imediato. A doença segue seu curso natural de 10 a 14 dias. O que podemos fazer é aliviar os sintomas (principalmente a dor) e acelerar a cicatrização. 

Opções disponíveis: 

Medicamentos tópicos (pomadas e géis): 

  • Pomadas com anestésicos locais (como lidocaína) – aliviam a dor temporariamente 
  • Géis anti-inflamatórios (como triancinolona) – reduzem a inflamação e aceleram a cicatrização 
  • Produtos que formam uma película protetora sobre a afta, isolando-a do contato com alimentos 

Medicamentos orais: 

  • Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) para dor mais intensa 
  • Anti-inflamatórios (sob prescrição) em casos de múltiplas aftas ou lesões muito grandes 

Laserterapia:

É um dos tratamentos mais modernos e eficazes. O laser de baixa intensidade aplicado diretamente sobre a afta promove analgesia imediata (a dor cessa quase na hora) e acelera significativamente a cicatrização. O tratamento é feito no consultório do dentista. 

Importante: nunca use medicamentos por conta própria sem orientação. Corticoides, por exemplo, podem piorar infecções se usados incorretamente. 

Tratamentos caseiros: o que funciona e o que evitar 

A internet está cheia de receitas caseiras contra afta. Algumas são inofensivas, outras podem piorar o quadro. Veja o que a ciência e os especialistas dizem: 

O que pode ajudar (com moderação): 

  • Bochechos com água morna e sal (meia colher de chá de sal em um copo de água morna) – ajuda a limpar a região e reduz a inflamação leve 
  • Bochechos com água e bicarbonato (uma pitada) – pode reduzir a acidez da boca, mas não acelera a cura 
  • Aplicação de gelo ou cubo de água gelada sobre a afta – alivia temporariamente a dor por anestesia térmica 

O que não funciona ou pode piorar: 

  • Passar bicarbonato puro ou em pasta diretamente na afta – pode queimar ainda mais o tecido e retardar a cicatrização 
  • Passar sal grosso ou açúcar diretamente – causa dor intensa e agride a mucosa 
  • Aplicar alho, própolis ou limão – são extremamente irritantes e podem transformar uma afta simples em uma inflamação maior 
  • Usar produtos não destinados à mucosa oral (como água oxigenada sem orientação) 

A especialista Bruna Conde é categórica: passar bicarbonato na afta não cura o problema. O método de aplicação, a frequência e a quantidade podem prejudicar ainda mais a afta e a saúde bucal como um todo. 

Regra de ouro: antes de qualquer tratamento caseiro, pergunte ao seu dentista. Ele poderá dizer se aquela receita é segura para o seu caso específico. 

Como prevenir as aftas? 

Nem sempre é possível evitar uma afta, especialmente se você tem predisposição genética. Mas algumas medidas reduzem muito a frequência e a intensidade dos surtos: 

Higiene bucal adequada: 

  • Escove os dentes suavemente, com cerdas macias 
  • Use creme dental sem lauril sulfato de sódio (algumas marcas oferecem essa versão) 
  • Evite escovação excessiva ou agressiva 
  • Use fio dental diariamente, com cuidado para não machucar a gengiva 

Ajustes no dentista: 

  • Visite o dentista regularmente (a cada 6 meses) 
  • Peça para ajustar próteses, aparelhos, dentaduras ou restaurações que tenham pontas ou arestas 
  • Em caso de aparelho ortodôntico, use cera ortodôntica para proteger a mucosa 

Controle do estresse e da ansiedade: 

  • Pratique atividades relaxantes (meditação, respiração profunda, caminhadas) 
  • Durma bem – noites mal dormidas enfraquecem a imunidade 
  • Identifique situações de estresse que antecedem o aparecimento das aftas 

Alimentação: 

  • Evite ou reduza alimentos ácidos (abacaxi, laranja, limão, kiwi, tomate, vinagre) 
  • Modere alimentos condimentados e muito salgados 
  • Evite temperaturas extremas (muito quente ou muito gelado) durante os surtos 
  • Mantenha uma dieta equilibrada, rica em frutas (não ácidas), vegetais, proteínas e grãos integrais 

Suplementação (sob orientação):

Se você tem aftas recorrentes, um exame de sangue pode identificar deficiências de ferro, vitamina B12, ácido fólico ou zinco. A correção dessas carências, sob supervisão médica, pode reduzir drasticamente a frequência das lesões. 

Quando procurar um médico ou dentista? 

Embora a afta comum seja benigna, alguns sinais merecem atenção profissional: 

  • Afta que dura mais de 14 dias sem melhorar 
  • Feridas muito grandes (acima de 1 cm de diâmetro) 
  • Múltiplas aftas (mais de 5 ou 6 ao mesmo tempo) – condição chamada de estomatite aftosa recorrente grave 
  • Aftas que surgem em locais incomuns (como na garganta) 
  • Febre, ínguas (gânglios) muito doloridos ou cansaço extremo acompanhando as feridas 
  • Dificuldade para beber líquidos (risco de desidratação) 
  • Histórico de doenças imunológicas ou uso de medicamentos que afetam a imunidade 
  • Se você nunca teve aftas e, já na vida adulta, passou a ter lesões que não cicatrizam – pode ser outro tipo de doença 

Fonte: Dra Bruna Conde, cirurgiã dentista, especialista em Periodontia, Cirurgia Plástica Periodontal e Perimplantar, faz parte da Associação Brasileira de Halitose (ABHA), da Liva – startup especializada no controle de dores orofaciais causadas pelo bruxismo – e da Associação Brasileira de Medicina do Sono (ABMS). 

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