Refluxo gastroesofágico: entenda a doença e saiba como controlar os sintomas

Bianca Azevedo

Refluxo gastroesofágico: entenda a doença e saiba como controlar os sintomas

Aquele ardor que sobe do estômago para o peito depois de uma refeição mais pesada. O gosto amargo na boca ao deitar. A tosse seca que aparece sem explicação. Para muitas pessoas, esses episódios são esporádicos e passam sozinhos. Mas quando se tornam frequentes e intensos, podem ser sinal de uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo: a doença do refluxo gastroesofágico, conhecida pela sigla DRGE. 

O refluxo gastroesofágico é um dos problemas mais comuns do trato gastrointestinal, com prevalência estimada de 10% a 20% no mundo ocidental. Entender o que é, por que acontece e como tratar é essencial para quem convive com o desconforto — e para quem ainda não sabe que tem a doença. 

O que é o refluxo gastroesofágico 

Vez ou outra, quando comemos algo “que não cai bem” ou exageramos na quantidade, é normal sentir uma queimação na região do estômago ou da caixa torácica, que geralmente chamamos de azia. Ou, ainda, um gosto amargo na boca ou na parte baixa da garganta. Isso acontece porque há o retorno de líquido estomacal, que é naturalmente ácido para digerir os alimentos. 

O refluxo gastroesofágico se torna uma doença quando o conteúdo gástrico retorna para o esôfago com frequência e provoca sintomas. Esse refluxo ocorre devido a um relaxamento inapropriado do esfíncter inferior do esôfago, que funciona como uma “porta” para o estômago e que, na DRGE, não fecha direito. 

O que diferencia a doença de um sintoma esporádico é justamente a frequência. Inflamações constantes na parede do esôfago indicam que o músculo e o esfíncter esofágico inferior não estão funcionando corretamente. Quando isso ocorre muitas vezes e dependendo do nível de acidez estomacal, o tecido do esôfago pode sofrer lesões graves, levando a outro quadro chamado esofagite. 

Causas e fatores de risco 

O refluxo gastroesofágico acontece por várias razões. Uma delas é a flacidez do esfíncter da região. O refluxo crônico ainda pode estar ligado à anatomia do indivíduo e ao seu estilo de vida e alimentação. Por exemplo, uma dieta rica em gorduras e alimentos que estimulam o relaxamento do esfíncter esofágico inferior pode ser responsável pela condição. 

Outras causas incluem hérnia de hiato, quando parte do estômago passa para a cavidade torácica por meio do diafragma; gravidez; tabagismo; e consumo excessivo de álcool e de alguns alimentos como chocolate, itens gordurosos e cafeína. 

Entre os fatores de risco mais comuns estão a obesidade — os episódios de refluxo tendem a diminuir quando a pessoa atinge seu peso saudável —, o consumo de refeições volumosas antes de deitar, o aumento da pressão intra-abdominal, a ingestão de alimentos como café, chá preto, chá mate, chocolate, molho de tomate, comidas ácidas, bebidas alcoólicas e gasosas, além de hérnia de hiato, gravidez, diabetes e doenças alérgicas. 

Sintomas 

Queimação constante, conhecida como azia, desconforto intenso na região do estômago e esôfago, regurgitação, gosto amargo na boca e na garganta são alguns dos sintomas do refluxo gastroesofágico. 

Além disso, algumas pessoas sentem dificuldade em digerir qualquer tipo de alimento, pois uma simples refeição pode ser sinônimo de desconforto. A falta de apetite decorrente desses sintomas pode ser um sinal vermelho para procurar ajuda profissional. A longo prazo, isso pode trazer outras consequências, como anemia, por causa da alimentação inadequada. 

Alguns sinais podem ser atípicos, como pigarro, rouquidão e tosse crônica, o que abre precedentes para um autodiagnóstico equivocado. 

Como diferenciar refluxo de sintoma cardíaco 

A doença do refluxo gastroesofágico pode causar sintomas como queimação e dor torácica que podem ser confundidos com infarto. Nesse caso, a indicação é procurar um médico para que faça o diagnóstico correto e descarte a possibilidade de ataque cardíaco ou outras doenças do coração. 

Diagnóstico e exames 

Em alguns casos, o histórico clínico, questionários e a resposta à terapia com inibidor de bomba de prótons são ferramentas insuficientes para o diagnóstico. Sendo assim, torna-se essencial a realização de exames para confirmar a existência da doença. 

Os principais exames para o diagnóstico da DRGE são a endoscopia digestiva alta, a pHmetria, a impedanciometria e a manometria de alta resolução. Exames radiológicos contrastados e a cintilografia com tecnécio 99m Tc também podem ser empregados. 

Tratamento:

Mudanças nos hábitos 

Caso você tenha refluxo gastroesofágico, serão necessárias algumas mudanças no seu estilo de vida. As principais: 

  • Alguns alimentos como café, frutas cítricas, bebidas gaseificadas, certos tipos de temperos e frituras poderão ser riscados do cardápio 
  • Perder peso, se você estiver com sobrepeso 
  • Levantar a cabeceira da cama de quinze a vinte centímetros, colocando blocos de madeira embaixo das pernas da cama ou uma cunha de espuma embaixo do colchão 
  • Esperar de 2 a 3 horas para se deitar após a refeição 
  • Parar de fumar. A saliva ajuda a neutralizar o ácido, e o hábito de fumar reduz a quantidade de saliva na boca e na garganta. O tabagismo também diminui a pressão no esfíncter inferior do esôfago e provoca tosse, causando episódios frequentes de refluxo ácido no esôfago 

Remédios para refluxo 

Caso as mudanças não sejam suficientes, o médico prescreverá medicamentos específicos para reduzir o nível de acidez do líquido estomacal e aliviar os sintomas. As principais medicações utilizadas no tratamento da DRGE são os inibidores de bomba de prótons, os famosos “prazois”, como o omeprazol e o pantoprazol. 

Apesar de muito se falar sobre os efeitos colaterais dos inibidores de bomba de prótons, diversos estudos mais recentes comprovam a segurança da medicação quando utilizada adequadamente. Por isso, sempre procure um profissional capacitado para fazer o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento correto da sua doença. 

Quando a cirurgia é necessária 

A cirurgia de refluxo pode ser realizada se a pessoa estiver apresentando complicações, como úlcera e esôfago de Barrett. Também para aqueles que apresentam refluxo há muito tempo, com intensidade maior ou sintomas muito frequentes e que não conseguem ficar sem medicação. Ainda, pode ser considerada a pedido do paciente. 

A cirurgia corrige a hérnia de hiato, quando presente, reposicionando a transição esofagogástrica na cavidade abdominal, logo abaixo do diafragma, e confecciona uma espécie de válvula anti-refluxo com o próprio estômago do paciente, suturando-o ao redor do esôfago. Não é necessária a colocação de nenhum material especial no paciente, como próteses. Ou seja, nessa cirurgia usam-se apenas fios cirúrgicos. 

Dieta para refluxo 

Comer devagar e mastigar bem os alimentos é importante para não sobrecarregar a atividade do seu estômago. Além disso, prefira ambientes calmos para se alimentar e reserve tempo suficiente para a refeição para conseguir comer com calma e atenção. 

As frutas são algumas das melhores fontes de fibras. As fibras ajudam na digestão, que é prejudicada devido ao refluxo, e ainda podem amenizar sintomas como a ânsia de vômito. Algumas das melhores frutas para quem tem refluxo são as menos ácidas. 

As leguminosas são alimentos altamente nutritivos e pouco calóricos. Sua grande quantidade de fibras e vitaminas é benéfica para o estômago e ameniza os efeitos do problema no corpo. 

Altamente nutritivas, as folhas verdes são pouco calóricas e uma excelente adição à dieta, sendo indicadas para quem sofre com o refluxo. 

As oleaginosas são o grupo de alimentos formado por sementes e grãos ricos em óleos benéficos para a saúde, como o ômega-3, uma gordura boa. Entre as boas opções para quem tem refluxo estão semente de chia, castanha-do-Pará, pistache, castanha de caju e macadâmia. 

Perguntas frequentes sobre refluxo gastroesofágico 

  1. O que é refluxo gastroesofágico?
    É uma condição em que o conteúdo do estômago retorna para o esôfago, causando sintomas como azia, regurgitação e gosto amargo na boca. Quando acontece com frequência, é chamado de doença do refluxo gastroesofágico (DRGE).
  2. Qual a diferença entre azia e refluxo?
    A azia é um sintoma isolado, que pode acontecer esporadicamente após uma refeição pesada. O refluxo gastroesofágico é a condição em que esse retorno acontece com frequência e causa desconforto recorrente.
  3. Refluxo pode ser confundido com infarto?
    Sim. A dor torácica e a queimação do refluxo podem ser confundidas com sintomas cardíacos. Por isso, é fundamental procurar um médico para fazer o diagnóstico correto e descartar problemas no coração.
  4. Quais são os principais exames para diagnóstico?
    Endoscopia digestiva alta, pHmetria, impedanciometria e manometria de alta resolução. Exames radiológicos contrastados e cintilografia também podem ser usados.
  5. Refluxo tem cura?
    Não existe cura, mas a condição pode ser controlada com medicamentos, mudanças de hábitos e, em alguns casos, cirurgia. Reincidir em maus hábitos pode fazer os sintomas voltarem.
  6. Quais alimentos devo evitar?
    Café, frutas cítricas, bebidas gaseificadas, chocolate, molho de tomate, frituras, comidas ácidas, bebidas alcoólicas e certos temperos.
  7. Refluxo na gravidez é normal?
    Sim, é muito comum. Acontece por causa do aumento da pressão abdominal e do efeito da progesterona, que relaxa o esfíncter esofágico. Os sintomas costumam cessar após o nascimento do bebê.
  8. Bebês com refluxo precisam de tratamento?
    O refluxo fisiológico não demanda tratamento. O refluxo patológico, que interfere no desenvolvimento do bebê, pode precisar de medicamentos e acompanhamento com gastroenterologista pediátrico.
  9. O que é refluxo oculto?
    É quando o conteúdo gástrico volta para o esôfago, mas não sai pela boca. Os sintomas podem ser confundidos com alergia ou intolerância. O bebê pode não ganhar peso, chorar após mamar e ter tosse frequente.
  10. Quando a cirurgia é indicada?
    Quando há complicações como úlcera ou esôfago de Barrett, quando o refluxo é intenso e o paciente não consegue ficar sem medicação, ou a pedido do paciente.
Fontes 
  • Isaac Altikes, médico gastroenterologista do Hospital Santa Catarina – Paulista, em São Paulo/SP; 
  • Zuleica Barrio Bortoli, gastroenterologista e coordenadora do Núcleo de Doenças Intestinais Complexas (NEDIC) do Hospital Brasília; 
  • Dr. Paulo Jaziel Pittelli, médico graduado pela Faculdade de Medicina de Catanduva – SP. Residência Médica em Cirurgia Geral e em Cirurgia Gastroenterológica no Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo. Título de Especialista em Cirurgia do Aparelho Digestivo e Certificado de Atuação na Área de Cirurgia Bariátrica pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva; 
  • Dra. Letícia Rubim, médica pediatra pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), membro da Sociedade Brasileira de Pediatria. 

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