Queda de cabelo e “canetas emagrecedoras”: qual a relação?
Camila Rubim

A queda de cabelo associada aos agonistas do receptor GLP-1 tem sido um dos temas mais comentados nas redes sociais e, cada vez mais, nos consultórios médicos. Pacientes que iniciam o tratamento com semaglutida ou tirzepatida para perda de peso ou controle do diabetes têm se visto ansiosos, perguntando: “Vou ficar careca?” ou “Já estou perdendo muito cabelo, devo parar o remédio?”
As respostas, baseadas nas evidências científicas mais recentes, são mais tranquilizadoras do que se imagina.
O que as evidências científicas mostram
Nos últimos dois anos, a comunidade científica se debruçou sobre o tema da queda capilar associada ao uso de agonistas GLP-1, e os resultados são consistentes.
Uma metanálise publicada em 2026 revelou que o uso desses medicamentos está associado a um risco relativo de 3,25 vezes maior de queda de cabelo em comparação ao placebo. Esse número, embora significativo, mostra que a queda é um evento relativamente pouco frequente — afeta menos de 1 em cada 20 pacientes.
Além disso, estudos com dados do sistema de farmacovigilância americano (FAERS) mostraram que semaglutida e tirzepatida apresentam sinais de risco elevado para alopecia, enquanto liraglutida, um medicamento mais antigo e de uso diário, não mostrou a mesma associação.
Por que a queda acontece?
A explicação mais aceita pela comunidade científica é que a queda capilar associada aos GLP-1 é, na verdade, um eflúvio telógeno — uma condição temporária e não cicatricial desencadeada por estresse fisiológico.
O processo funciona assim:
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O paciente inicia o tratamento e perde peso de forma acelerada.
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O corpo interpreta essa perda rápida como um estresse metabólico.
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Para preservar energia para órgãos vitais, uma porcentagem maior de folículos capilares é forçada a sair da fase de crescimento ativo e entrar na fase de repouso (telógena).
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Cerca de 2 a 3 meses depois, esses fios caem de forma difusa e intensa.
O eflúvio telógeno é um mecanismo bem conhecido e já descrito em outras situações de estresse metabólico, como cirurgia bariátrica, pós-parto e dietas extremamente restritivas. Ou seja, o problema não é diretamente do remédio, mas do estresse gerado no corpo no início do uso.
Outras possíveis causas para a queda
Embora o eflúvio telógeno seja o mecanismo principal, outros fatores podem contribuir para a queda após o início do uso das “canetas”:
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Deficiências nutricionais
A redução drástica da ingestão calórica pode levar a carências de proteínas, ferro, zinco e vitamina D — todos nutrientes essenciais para a saúde capilar.
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Desmascaramento de alopecia androgenética
Em pacientes com predisposição genética para calvície, o eflúvio pode “desmascarar” uma condição preexistente, acelerando a percepção da perda capilar.
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Possível efeito direto nos folículos (ainda incerto)
Estudos em camundongos mostraram que receptores de GLP-1 estão presentes nos folículos capilares, levantando a hipótese de um possível efeito direto da medicação no ciclo capilar. No entanto, não há evidência robusta em humanos para confirmar essa teoria.
O que fazer para evitar ou diminuir a queda
Diante da queda de cabelo associada ao uso de GLP-1, o paciente pode adotar algumas medidas práticas e importantes para minimizar o impacto e lidar melhor com a situação. Especialistas recomendam:
Antes de iniciar o tratamento
- Conversar abertamente com o médico sobre a possibilidade de queda difusa e temporária, especialmente nos primeiros meses de tratamento, para que não haja surpresas.
- Se houver histórico familiar de calvície (alopecia androgenética), considerar um acompanhamento dermatológico precoce.
Durante o tratamento
- Buscar uma perda de peso gradual, evitando o chamado “efeito precipício” — a perda muito rápida e abrupta que sobrecarrega o organismo.
- Dar especial atenção à nutrição, garantindo uma ingestão adequada de proteínas, ferro, zinco e vitaminas. Em casos de restrição alimentar severa, considerar suplementação orientada por exames.
- Monitorar a queda em casa e levar essas observações ao médico nas consultas de rotina.
Em casos persistentes
- Investigar possíveis deficiências nutricionais (ferro, vitamina D, zinco) e alterações na tireoide por meio de exames laboratoriais.
- Considerar o encaminhamento a um dermatologista para avaliação especializada e, se necessário, o uso de tratamentos tópicos, como o minoxidil.
O que NÃO fazer?
A orientação unânime dos especialistas é: não suspender o medicamento por conta própria. A queda capilar, na maioria dos casos, é autolimitada e reversível. Interromper o tratamento pode comprometer os benefícios metabólicos (controle glicêmico, perda de peso, redução de risco cardiovascular) sem necessariamente resolver o problema capilar.
Se a queda for muito intensa ou prolongada (mais de 6 meses), a investigação de outras causas é fundamental antes de atribuí-la exclusivamente ao GLP-1.
O quadro é reversível?
Sim, na grande maioria dos casos. O eflúvio telógeno é uma condição que se resolve espontaneamente assim que o fator estressor (a perda rápida de peso) se estabiliza.
O cronograma típico é:
- 2 a 3 meses após o início da perda rápida de peso: início da queda perceptível.
- 3 a 6 meses após a estabilização do peso: o ciclo capilar se normaliza e o cabelo começa a crescer novamente.
Não há evidência de dano folicular permanente ou de que o cabelo não volte a crescer após o tratamento com GLP-1.
Fontes:
Pesquisa: Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and hair loss: A systematic review and meta-analysis





