GLP-1 e suplementação: o que tomar durante e depois do tratamento
Camila Rubim

“Doutor, eu comecei a tomar a caneta e estou emagrecendo, mas estou perdendo força, meu cabelo está caindo ou estou com prisão de ventre. O que fazer?”
Essa pergunta tem se tornado cada vez mais comum nos consultórios de endocrinologia e nutrição. A resposta, na maioria das vezes, envolve três palavras: suplementação nutricional personalizada.
Mas quais suplementos tomar? Em que momento? E, principalmente, o que fazer quando o tratamento com GLP-1 termina? Este guia prático responde a essas perguntas com base nas evidências científicas mais recentes.
Durante o tratamento: o que tomar e por que
O problema: nutrientes insuficientes
Os medicamentos GLP-1 reduzem o apetite e atrasam o esvaziamento gástrico. Isso é ótimo para emagrecer, mas tem um custo: a ingestão de calorias cai drasticamente, e com ela a ingestão de vitaminas, minerais e proteínas.
Pesquisas mostram que pacientes em uso de GLP-1 frequentemente não atingem as recomendações diárias de nutrientes essenciais como vitamina D, cálcio, ferro, vitamina B12 e zinco. E, com uma alimentação reduzida, fica ainda mais difícil suprir essas necessidades apenas com a dieta.
A solução: suplementação estratégica
Especialistas recomendam uma abordagem em camadas para a suplementação, dividindo os suplementos em duas categorias principais: os de uso mais amplo, recomendados para a maioria dos pacientes, e os adicionais, que devem ser considerados conforme a necessidade individual de cada um.
Entre os suplementos considerados “base” para a maioria dos pacientes, estão:
- multivitamínico completo, que deve ser tomado na dose de um comprimido por dia para prevenção de deficiências múltiplas;
- proteína em pó, seja whey ou vegetal, com dose diária recomendada de 20 a 40 gramas para ajudar a atingir a meta de 1,2 a 2,0 gramas por quilo de peso corporal, fundamental para a preservação da massa muscular;
- vitamina D, com doses de 800 a 2.000 UI por dia ou conforme orientação de exames, essencial para a saúde óssea e imunidade;
- fibras solúveis, como psyllium ou goma guar, com 5 a 10 gramas por dia para alívio da constipação;
- probióticos, com diversas cepas e doses de 10 a 30 bilhões de UFC por dia, importantes para o equilíbrio da saúde intestinal.
Já os suplementos “adicionais” devem ser considerados conforme a necessidade de cada paciente:
- creatina é indicada para aqueles que praticam exercícios de resistência e desejam preservar a força muscular;
- HMB (β-hidroxi β-metilbutirato) é especialmente recomendado para idosos ou pacientes com perda muscular significativa;
- ômega-3 auxilia na redução da inflamação e no suporte cardiovascular;
- ferro é fundamental para mulheres com sangramento menstrual intenso ou anemia confirmada;
- vitamina B12 é especialmente importante para usuários de metformina ou pacientes com dieta vegetariana restrita.
Como tomar os suplementos?
Algumas dicas práticas para o uso correto dos suplementos:
- Recomenda-se tomá-los com alimentos para evitar náuseas, especialmente no início do tratamento.
- É importante espaçar a ingestão de cálcio e ferro, pois eles competem pela absorção no organismo — por isso, devem ser tomados em horários diferentes.
- Em casos de dificuldade para engolir comprimidos, formas líquidas ou mastigáveis podem ser uma boa alternativa.
Além disso, é fundamental acompanhar o uso com exames laboratoriais periódicos, especialmente para vitamina D, ferro (ferritina) e B12, para ajustar as doses conforme necessário.
Após o tratamento: como evitar o efeito sanfona
Um dado preocupante: mais da metade dos pacientes interrompe o tratamento com GLP-1 dentro do primeiro ano. Os motivos mais comuns são o custo elevado e os efeitos colaterais gastrointestinais. E, quando o medicamento é suspenso, o risco de reganho de peso é alto: até dois terços do peso perdido podem ser recuperados em 12 meses.
Mas alguns suplementos podem auxiliar na transição após a suspensão do GLP-1, ajudando a controlar o apetite, estabilizar a glicose e evitar o reganho de peso.
Suplementos para o pós-tratamento: o que a ciência sugere
Embora nenhum suplemento substitua o efeito do medicamento, alguns podem auxiliar no controle do apetite e da glicemia durante o período pós-tratamento.
Para o controle de apetite e saciedade, os suplementos com evidência científica incluem proteínas, fibras, cafeína e termogênicos como o chá verde, que atuam aumentando a sensação de saciedade e promovendo a termogênese.
Para o controle glicêmico, os estudos apontam benefícios do extrato de folha de amoreira, berberina, canela, ácido alfalipóico (ALA), fibras e vitamina D. Esses suplementos atuam na modulação da absorção de carboidratos e no aumento da sensibilidade à insulina.
Para o suporte metabólico geral, recomenda-se a manutenção de um multivitamínico completo, ômega-3 e cromo, que ajudam na prevenção de deficiências nutricionais e no suporte ao metabolismo como um todo.
Esses suplementos são coadjuvantes — ou seja, não substituem uma alimentação saudável, exercícios físicos e mudanças de estilo de vida, mas podem oferecer um “empurrão” adicional durante o período de transição.
O que NÃO fazer?
O paciente não deve se automedicar, pois suplementos em excesso podem ser tóxicos — o excesso de ferro ou de vitamina A, por exemplo, pode causar danos à saúde. Também não deve substituir refeições por suplementos, já que eles são complementos e não substitutos de uma alimentação equilibrada.
E mais importante: nunca se deve parar o GLP-1 por conta própria devido a efeitos colaterais — a conduta correta é conversar com o médico para ajustes na dose ou mudança de estratégia.
Por fim, sintomas persistentes como queda de cabelo intensa, fadiga extrema ou fraqueza muscular não devem ser ignorados; eles merecem investigação cuidadosa.
Fontes:





