Dayvigo: para quem o novo remédio para insônia realmente funciona
Bianca Azevedo

Você sabia que existe uma molécula no cérebro cuja única função é manter você acordado? Ela se chama orexina. Bloqueá-la — e não sedar o sistema nervoso inteiro como faz, por exemplo, o Zolpidem — é a aposta do Dayvigo (lemborexanto), novo remédio para insônia aprovado pela Anvisa que deve chegar às farmácias brasileiras até o início de 2027.
A promessa é dormir sem o “efeito zumbi” dos indutores do sono tradicionais. A realidade, como sempre, exige uma leitura mais atenta — e é isso que te contamos aqui.
Dayvigo é um “Zolpidem mais seguro”?
Chamar o lemborexanto de “versão mais segura do Zolpidem” é um erro. Os dois medicamentos não são parentes próximos na farmácia — são primos distantes, com formas de agir praticamente opostas.
O lemborexanto pertence a uma classe de remédios chamada DORA — sigla em inglês para “antagonista duplo dos receptores de orexina”. Parece complicado, mas a ideia é simples: DORA é um remédio que bloqueia a orexina, a substância que o cérebro produz para manter você acordado. “Duplo” porque ele bloqueia dois tipos de receptores dessa substância (tipo 1 e tipo 2). É como se a orexina fosse um alarme que toca no cérebro dizendo “fique acordado” — e o DORA simplesmente desliga esse alarme.
Já, o Zolpidem e os benzodiazepínicos funcionam de outro jeito: eles não desligam um alarme específico, eles abaixam o volume do cérebro inteiro. Tecnicamente, eles potencializam o GABA, o “freio” natural do sistema nervoso — e esse freio age em todo lugar, não só onde deveria.
Segurança respiratória
Os DORAs afetam o drive respiratório de forma diferente dos benzodiazepínicos e das drogas Z, sendo mais seguros para pacientes com apneia do sono ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) que também têm insônia. Estudos específicos com lemborexanto não mostraram piora da saturação de oxigênio nesses pacientes. Como o Brasil tem carga elevada de comorbidades respiratórias, essa característica pode ser benéfica para muitos pacientes.
Efeitos colaterais do Dayvigo
É por ter mecanismos diferentes que os efeitos colaterais dos dois medicamentos também diferem. Como o Dayvigo (com mecanismo DORA) age só na via da orexina — que controla a vigília, mas não é responsável por “ativar” o sono —, ele tende a ser mais cirúrgico. Não deixa a pessoa grogue nem relaxa os músculos como o Zolpidem.
Mas essa seletividade também tem um preço. Os DORAs têm um efeito colateral peculiar: a paralisia do sono, que atinge cerca de 1 em cada 80 a 100 pacientes: o paciente acorda, consegue ouvir e mover os olhos, mas o corpo não se move, geralmente por cerca de 20 segundos. Sonhos muito vívidos também são relatados — o que pode ser desconfortável para quem costuma ter pesadelos.
Dependência: o que os dados mostram
A Eurofarma (responsável pela comercialização, promoção e distribuição no Brasil) destaca que o lemborexanto não apresentou evidências de risco de dependência nos estudos clínicos. Não foram observados insônia rebote ou abstinência nos ensaios.
Ainda assim, a Anvisa incluiu o Dayvigo na lista B1 de controlados, com retenção de receita. Nos Estados Unidos, a FDA classifica o lemborexanto como substância controlada de Categoria IV, reconhecendo potencial de abuso baixo, mas não nulo.
Quanto vai custar o Dayvigo no Brasil?
Com custo estimado em R$ 200 por mês, o Dayvigo é várias vezes mais caro que genéricos de Zolpidem. Isso faz com que, no curto prazo, ele tenda a ser posicionado como opção de segunda linha para pacientes intolerantes ao tratamento tradicional ou com risco de dependência, e não como substituto amplo.
Converse com seu médico
O Dayvigo acrescenta ao arsenal brasileiro uma ferramenta com mecanismo genuinamente novo. Seu valor está em oferecer uma alternativa para quem não se adapta ou não quer usar fármacos que atuam sobre o GABA. Mas não é solução universal: paralisia do sono, sonhos vívidos, status de medicamento controlado e dados de longo prazo ainda em construção precisam ser discutidos na prescrição.
Em uma doença tão individualizada como a insônia, a novidade é bem-vinda — mas o julgamento criterioso de um médico não pode ser substituído pelo entusiasmo com o mecanismo inédito.
Fontes
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Eurofarma (Comunicado Oficial) | Eurofarma anuncia aliança estratégica com Eisai para comercialização de DAYVIGO® no Brasil
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Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) | Dayvigo® (lemborexante): novo registro
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Conselho Federal de Farmácia (CFF) | Novo medicamento para insônia chega ao Brasil com mecanismo diferente do zolpidem
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FDA (U.S. Food and Drug Administration) | DAYVIGO® (lemborexant) tablets, for oral use, CIV (Prescribing Information)





