Cuidados com a visão: como envelhecer com olhos saudáveis

Isabelle Macedo Cabral

Cuidados com a visão: como envelhecer com olhos saudáveis

Você já parou para pensar na última vez que fez um exame de vista? Pois saiba que a saúde dos seus olhos hoje determina como você vai enxergar daqui a 20, 30 ou 40 anos. E não é só isso: a pandemia mudou nossos hábitos, e o aumento do tempo diante de telas já mostrou seus efeitos. Uma pesquisa publicada na revista científica The Lancet revelou que, entre 2019 e 2020, a miopia teve um aumento de 40% entre jovens de 5 a 18 anos. O dado é alarmante, mas há boas notícias: a maioria dos problemas oculares pode ser prevenida ou retardada com cuidados simples. A seguir, explicamos como ter uma boa visão em todas as idades. 

É possível envelhecer com uma boa visão? 

Sim, dentro dos limites naturais de cada pessoa. Os olhos, como qualquer outro órgão, envelhecem. Algumas condições, como a catarata (opacificação do cristalino), são tão comuns que podem ser consideradas parte do processo natural de envelhecimento. Mas isso não significa que você esteja condenado a enxergar mal na terceira idade. 

O segredo está em separar o que é inevitável do que é evitável. Por exemplo: 

  • Inevitável (mas tratável): presbiopia (“vista cansada”, que começa por volta dos 40 anos), catarata senil 
  • Evitável ou retardável: degeneração macular relacionada à idade (DMRI), glaucoma (quando não diagnosticado precocemente), complicações da diabetes nos olhos 

A chave para uma boa visão na terceira idade é começar os cuidados cedo – de preferência na infância – e mantê-los por toda a vida. 

Cuidados desde a infância: a base de tudo 

Muitos problemas oculares em idosos começaram na infância e foram negligenciados. Por isso, a atenção precoce é fundamental. 

Exame de refração (grau dos óculos):
Crianças devem fazer exame oftalmológico completo ainda no primeiro ano de vida e, depois, regularmente. Controlar o grau evita o desenvolvimento de miopia alta, que na terceira idade pode trazer complicações sérias, como descolamento de retina e glaucoma. 

Alergias e coceiras frequentes:
Crianças que coçam os olhos constantemente (por rinite alérgica, por exemplo) podem desenvolver ceratocone, uma doença em que a córnea perde sua curvatura normal, ficando em formato de cone. Isso leva à perda progressiva da visão e pode exigir transplante de córnea em casos graves. Tratar as alergias é também cuidar dos olhos. 

Olhos secos precoces:
A síndrome do olho seco não é coisa só de adulto. Crianças que usam muito tablet ou computador, têm blefarite (inflamação nas pálpebras) ou rosácea podem desenvolver ressecamento crônico. Isso se arrasta por décadas e causa desconforto severo na terceira idade. 

Dica para pais: leve seu filho ao oftalmologista no primeiro ano de vida, antes da entrada na escola e sempre que notar vermelhidão persistente, coceira excessiva ou desvio nos olhos. 

Cuidados gerais com a saúde: o que o corpo tem a ver com os olhos? 

Tudo. Seus olhos são um espelho do seu corpo. Doenças sistêmicas frequentemente se manifestam primeiro nos olhos ou são agravadas por elas. 

Controle do diabetes:
A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira evitável no mundo. Manter a glicemia controlada reduz drasticamente o risco. 

Controle da pressão arterial:
A hipertensão pode causar retinopatia hipertensiva (lesões nos vasos sanguíneos da retina) e aumentar o risco de oclusões vasculares (derrames oculares). 

Mantenha o colesterol sob controle:
Níveis altos de colesterol podem formar placas nos vasos da retina e também contribuir para a degeneração macular. 

Exercício físico regular:
Manter-se ativo ajuda a controlar diabetes, pressão alta e colesterol – todos fatores de risco para doenças oculares. Além disso, a atividade física melhora a circulação sanguínea, inclusive nos olhos. 

Não fume:
O tabagismo é um dos piores hábitos para a visão. Fumantes têm: 

  • Risco 2 a 3 vezes maior de desenvolver catarata 
  • Risco 3 a 4 vezes maior de degeneração macular 
  • Maior chance de síndrome do olho seco e uveíte 

Cuidados com a alimentação: o que comer para ter olhos saudáveis? 

Uma dieta rica em certos nutrientes protege a retina e retarda o envelhecimento ocular. 

Nutrientes essenciais para a visão: 

  • Vitamina A: fundamental para a visão noturna e manutenção da córnea. Fontes: cenoura, abóbora, batata-doce, manga, gema de ovo. 
  • Luteína e zeaxantina: pigmentos que protegem a mácula (região central da retina) contra a luz azul e o estresse oxidativo. Fontes: couve, espinafre, brócolis, milho, gema de ovo. 
  • Vitamina C: antioxidante que ajuda a prevenir catarata. Fontes: laranja, limão, acerola, kiwi, pimentão. 
  • Vitamina E: protege as células da retina. Fontes: oleaginosas (castanha-do-pará, amêndoas, nozes), sementes de girassol. 
  • Zinco: mineral essencial para a saúde da retina. Fontes: carnes, frutos do mar (especialmente ostras), feijão, castanhas. 
  • Ômega-3 (DHA e EPA): importante para a composição das membranas das células da retina. Fontes: peixes de água fria (salmão, sardinha, atum, tilápia), linhaça, chia, nozes. 

Sugestão de cardápio para a visão: 

  • Salada de couve com cenoura ralada e castanhas 
  • Salmão grelhado com brócolis no vapor 
  • Sobremesa: manga ou laranja 

Lembrete: nenhum alimento substitui o acompanhamento médico. Mas uma dieta equilibrada é um poderoso aliado. 

Cuidados com o ambiente e proteção física 

Proteção solar para os olhos (sim, é necessária!):
Assim como a pele, os olhos sofrem com a exposição excessiva aos raios ultravioleta (UV). O dano é cumulativo – começa na infância e se manifesta décadas depois. 

O que o sol pode causar aos olhos: 

  • Pterígio: crescimento de uma membrana carnosa sobre a córnea (muito comum em surfistas, pescadores e pessoas que trabalham ao ar livre) 
  • Catarata precoce: a exposição UV acelera a opacificação do cristalino 
  • Degeneração macular: a radiação solar contribui para danos na retina 
  • Ceratite actínica: queimadura da córnea (como um “protetor solar queimado”, mas no olho) 

Como se proteger: 

  • Use óculos escuros com filtro UV 400 (que bloqueiam 99% a 100% dos raios UVA e UVB). Atenção: lentes escuras sem proteção UV são piores que nenhum óculos, pois a pupila dilata e entra mais radiação. 
  • Prefira óculos com proteção lateral (envolventes) para atividades ao ar livre 
  • Use bonés, chapéus de aba larga e viseiras – reduzem a incidência direta de sol 
  • Evite exposição solar entre 10h e 14h, quando a radiação é mais intensa. Mesmo em dias nublados, a radiação UV pode chegar a 70% da de um dia ensolarado. 
  • Em praias, piscinas e neve, redobre a proteção – a água e a areia refletem a luz, aumentando a exposição. 

Proteção contra traumas (acidentes): 

  • No trabalho com produtos químicos, solda, serragem ou qualquer atividade que gere partículas voadoras, use óculos de proteção (EPI). Lesões oculares são uma das principais causas de cegueira unilateral em adultos jovens. 
  • Se você tem apenas um olho com boa visão, use óculos de proteção mesmo em atividades domésticas simples – a perda do olho bom pode ser devastadora. 
  • Em esportes de contato ou com bola (tênis, squash, basquete), use óculos esportivos de policarbonato. 

Cuidados com telas e computadores 

O uso prolongado de computadores, smartphones e tablets tem aumentado drasticamente a síndrome da visão de computador (CVS). Os principais sintomas são: 

  • Olhos secos, vermelhos e irritados 
  • Visão embaçada ou dupla 
  • Dor de cabeça (especialmente na testa) 
  • Dor no pescoço e ombros (postura inadequada) 
  • Dificuldade para focar de longe após usar tela 

Por que isso acontece?
Quando olhamos para telas, piscamos 3 a 5 vezes menos que o normal (o normal é 15 a 20 piscadas por minuto). Isso resseca a superfície do olho e cansa os músculos focais. 

Como minimizar os danos: 

  • Regra 20-20-20: a cada 20 minutos, olhe para algo a 6 metros de distância (20 pés) por 20 segundos. Isso relaxa os músculos ciliares. 
  • Ajuste o brilho da tela: nem muito alto (cansa), nem muito baixo (força). Deve ser similar ao brilho do ambiente. 
  • Use iluminação indireta: evite luzes fortes incidindo diretamente na tela ou vindo de trás. Prefira luminárias de mesa com luz voltada para o teto. 
  • Aumente o contraste e o tamanho da fonte – quanto maior e mais nítido, menos esforço. 
  • Mantenha distância adequada: o monitor deve ficar a cerca de 50 a 70 cm dos olhos, com o topo da tela na altura dos olhos ou ligeiramente abaixo. 
  • Use lentes com filtro de luz azul (se você usa óculos de grau) – embora a evidência científica seja mista, muitos usuários relatam menos cansaço. 
  • Pause para piscar e lubrificar: se sentir olho seco, use lágrimas artificiais sem conservantes (preservativos). Pisque deliberadamente algumas vezes. 

Para crianças (cuidado redobrado!):
O aumento da miopia na pandemia está diretamente ligado ao tempo excessivo de tela e à redução de atividades ao ar livre. Estudos mostram que passar pelo menos 1 a 2 horas por dia ao ar livre reduz a progressão da miopia em crianças. Incentive brincadeiras fora de casa sempre que possível. 

Cuidados com lentes de contato 

O uso incorreto de lentes de contato é uma das principais causas de infecções oculares graves (ceratites), que podem deixar sequelas permanentes. 

Regras básicas: 

  • Nunca durma com lentes a menos que sejam especificamente aprovadas para uso noturno (e mesmo assim, o risco de infecção é maior) 
  • Nunca use soro fisiológico para limpar ou guardar lentes – use apenas soluções específicas, trocadas diariamente 
  • Respeite o prazo de troca: lentes diárias = use uma vez e descarte; lentes mensais = descarte no prazo, mesmo que pareçam boas 
  • Lave bem as mãos antes de manusear as lentes 
  • Nunca use lentes na piscina, mar ou banheira – a água pode conter micro-organismos agressivos (como a Acanthamoeba, que causa uma infecção muito grave) 
  • Leve seus óculos de reserva – se o olho ficar vermelho ou desconfortável, troque imediatamente para os óculos 

Sinal de alerta: olho vermelho + dor + sensibilidade à luz + secreção = tire a lente imediatamente e procure um oftalmologista. Pode ser uma úlcera de córnea. 

Histórico familiar: o que seus pais e avós têm a ver com seus olhos? 

Muitas doenças oculares têm forte componente genético. Conhecer o histórico familiar ajuda a saber quando começar o rastreamento. 

Doenças com herança familiar: 

  • Glaucoma: especialmente o glaucoma de ângulo aberto, que é silencioso e pode levar à cegueira sem sintomas precoces 
  • Degeneração macular relacionada à idade (DMRI): se seus pais ou avós tiveram, seu risco é 3 a 4 vezes maior 
  • Miopia patológica (alta miopia): também tem agregação familiar 
  • Ceratocone: mais comum em algumas famílias 
  • Retinose pigmentar: distrofia hereditária da retina 

O que fazer: 

  • Pergunte a seus pais e avós se alguém na família tem ou teve glaucoma, catarata precoce, degeneração macular ou foi diagnosticado com alguma doença de retina. 
  • Compartilhe essa informação com seu oftalmologista. Se houver histórico de glaucoma, por exemplo, os examos de rotina devem começar mais cedo (a partir dos 40 anos). 
  • Se não houver histórico familiar de doenças oculares graves, a recomendação é começar o rastreamento anual por volta dos 65 anos (ou aos 40 para a presbiopia e catarata). 

Com que frequência devo ir ao oftalmologista? 

Não espere sentir sintomas para marcar consulta. Muitas doenças oculares (glaucoma, retinopatia diabética, degeneração macular inicial) são assintomáticas no início. 

Recomendações por idade: 

  • Bebês: primeira consulta no primeiro ano de vida (preferencialmente aos 6 meses) 
  • Crianças de 3 a 5 anos: pelo menos uma consulta antes da entrada na escola 
  • Crianças e adolescentes (6 a 18 anos): a cada 2 anos, ou anualmente se usar óculos ou lente de contato 
  • Adultos (19 a 39 anos): a cada 2 a 4 anos, se não houver fatores de risco 
  • Adultos (40 a 64 anos): a cada 1 a 2 anos – é nessa faixa que começam a aparecer presbiopia, catarata inicial e os primeiros sinais de glaucoma 
  • Idosos (65+): anualmente – o risco de todas as doenças oculares aumenta significativamente 

Exames principais que devem ser feitos regularmente: 

  • Medida da pressão intraocular (para rastrear glaucoma) 
  • Fundo de olho (exame da retina) 
  • Exame de refração (medida do grau) 
  • Mapeamento de retina (indicação em casos específicos) 

Diabéticos, hipertensos ou com histórico familiar de glaucoma devem fazer exame de fundo de olho no mínimo uma vez por ano, independentemente da idade. 

Cuidados específicos para a terceira idade 

Além das visitas regulares, algumas adaptações ajudam a preservar a qualidade de vida visual: 

  • Iluminação adequada: ambientes bem iluminados (luz branca, de preferência) reduzem o esforço visual. Invista em luminárias de leitura com foco direcionado. 
  • Contraste: use canetas pretas em papel branco, pratos de cor contrastante com a toalha de mesa, etiquetas com letras grandes. 
  • Tamanho de fontes: configure celular e computador com fonte ampliada (modo “acessibilidade”). 
  • Lentes que escurecem (fotossensíveis): ótimas para quem usa óculos de grau e não quer trocar para óculos escuros. Mas nada substitui óculos escuros de verdade em dias de muito sol. 
  • Cirurgia de catarata quando indicada: hoje é um procedimento seguro, rápido e que não exige internação. Não espere a catarata ficar “madura” demais – isso só torna a cirurgia mais difícil. 

Cuidar da visão hoje é garantir que você reconheça o rosto dos seus netos, leia um bom livro e dirija com segurança quando estiver mais velho. Seus olhos agradecem cada escolha saudável que você faz agora. 

Fonte: Dr. Victor Vintal, Oftalmologista do Hospital Santa Catarina.

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