Parei de usar a caneta: o que acontece agora?

fcsilveira

Parei de usar a caneta: o que acontece agora?

Você passou certo tempo em tratamento com canetas injetáveis, percebeu mudanças no peso e na saúde e, agora, começa a surgir uma dúvida: o que acontece quando parar de usar o medicamento?  

A resposta não está apenas na balança. 

Quando o tratamento é interrompido, o organismo deixa de receber os efeitos do medicamento sobre à fome e à saciedade. Por isso, algumas alterações podem aparecer ao longo do tempo. 

Entender esse processo ajuda a olhar para a manutenção como uma nova etapa do cuidado, e não como o fim dele. 

O peso pode voltar depois de interromper o uso? 

Sim, é possível. A recuperação de parte do peso perdido é frequente depois da interrupção de medicamentos para emagrecer. 

Uma pesquisa publicada em 2025 avaliou estudos sobre a suspensão de agonistas do receptor de GLP-1 (as canetas injetáveis) e encontrou recuperação de peso após a parada do tratamento. 

Isso não significa que todas as pessoas terão a mesma resposta, visto que o tempo de tratamento, o medicamento utilizado, a resposta individual e o cuidado mantido depois da interrupção podem influenciar esse processo. 

Pesquisas mais recentes também mostram que a recuperação do peso pode vir acompanhada de mudanças em alguns indicadores cardiometabólicos, ou seja, exames e medidas do corpo usados para avaliar o risco de desenvolver doenças do coração e diabetes tipo 2. 

Por isso, acompanhar o peso é importante, mas não deve ser a única forma de considerar como está sua saúde. 

O impacto no apetite e saciedade 

Durante o tratamento, medicamentos que atuam em mecanismos relacionados ao GLP-1 podem aumentar a saciedade e reduzir a fome. Depois da suspensão, esse efeito deixa de estar presente da mesma forma. 

O retorno da fome, portanto, pode fazer parte das mudanças percebidas nessa fase. Isso ajuda a explicar por que manter o cuidado com a alimentação depois do medicamento pode ser desafiador. 

A manutenção precisa ser acompanhada de forma individual, considerando os objetivos do tratamento e as mudanças observadas ao longo do tempo. 

Como manter os resultados após o fim do tratamento 

Não existe uma única estratégia capaz de garantir a manutenção do peso. No entanto, a combinação de três pilares da vida saudável pode fazer uma grande diferença a longo prazo.  

  1. Alimentação: qualidade antes da quantidade 

Com menos efeito do medicamento sobre a fome, organizar a alimentação pode ajudar a lidar com as mudanças do apetite. 

  • Priorize uma alimentação variada, com alimentos que contribuam para o consumo adequado de proteínas, vitaminas, minerais e outros nutrientes. 
  • Planeje refeições e compras para facilitar escolhas mais conscientes no dia a dia. 
  • Diminua a ingestão de alimentos ultraprocessados, como embutidos, iogurtes saborizados, biscoitos recheados, refrigerantes, entre outros. 
  • Mantenha a regularidade nos horários das refeições para evitar que o organismo saia da rotina.  

O objetivo não é criar uma alimentação perfeita, mas encontrar uma rotina que possa ser mantida. 

  1. Movimento: o que mantém o corpo forte e ativo 

A atividade física pode fazer parte do cuidado para manter o peso e preservar a massa muscular. 

Um estudo publicado em uma revista científica nos Estados Unidos acompanhou pessoas após uma perda de peso e comparou diferentes estratégias de manutenção. Os pesquisadores observaram que o exercício teve papel importante na manutenção do peso. 

A proposta do estudo era de praticar, pelo menos, 60 minutos de atividade física por dia, o que proporcionou resultados, como: 

  • queima de calorias 
  • manutenção do metabolismo ativo 
  • preservação da massa muscular 
  • melhora no humor e redução do estresse 

Isso não significa que seja necessário seguir exatamente a rotina de exercício usada na pesquisa. A quantidade e o tipo de atividade devem considerar sua condição de saúde, seus objetivos e a orientação da equipe que acompanha você. 

  1. Sono e estresse: o quanto você dorme importa 

Sono, estresse e outros aspectos da rotina podem influenciar o comportamento alimentar e a capacidade de manter hábitos ao longo do tempo. 

Quando você dorme mal ou menos horas do que o necessário, o seu corpo sofre uma desregulação imediata. 

  • Hormônios da fome: os níveis de grelina (hormônio que estimula a fome) aumentam e os de leptina (hormônio que sinaliza a saciedade) despencam.
     
  • Desejo por energia rápida: o cérebro cansado busca por recompensas rápidas para se manter acordado, o que leva ao desejo por carboidratos refinados, doces e alimentos ultraprocessados.
     
  • Ciclo do estresse: dormir mal com frequência pode alterar a regulação do cortisol, o hormônio do estresse. Quando elevado, o cortisol é capaz de alterar os sinais hormonais relacionados ao apetite e o metabolismo energético, além de prejudicar a qualidade do sono, outro fator crucial para regular a fome e a saciedade. 

Por esse motivo, o cuidado com a qualidade do sono precisa fazer parte da rotina.  

O horário em que se deita, a exposição às telas antes de dormir e a quantidade de bebidas energéticas que consome ao longo do dia têm impacto direto no seu descanso. 

E se o peso começar a subir novamente? 

Uma mudança na balança não significa, por si só, que o tratamento “deu errado”. Isso porque o peso pode variar por diferentes motivos.  

O importante é observar a tendência ao longo do tempo e conversar com a equipe de saúde quando perceber mudanças persistentes.  

Profissionais podem avaliar o que aconteceu, revisar os objetivos do cuidado e discutir quais estratégias fazem sentido para o momento. 

Em alguns casos, a manutenção pode exigir um novo plano de tratamento. A suspensão do medicamento não significa que você precise lidar com essas mudanças sem apoio. 

 

Referências 

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